Blog

Vozes inquietas que teimam em não se calar

6

Falar em público. Vivo disso, ensino isso, trabalho com isso, mas na segunda-feira dia 12 de setembro eu senti tudo que meus alunos dos cursos de Falar em Público relatam sentir: mãos suadas, frio na barriga, alguma tonteira e coisas afins. Eu seria o paraninfo de formatura das turmas de Processos Gerenciais e Negócios Imobiliários, e como paraninfo faria o discurso no evento. Gelei.

.

Sim, estava trêmulo como um virgem, nervoso “como um goleiro na hora do gol” e tentando parecer seguro para não me atrapalhar demais. Fiquei muito nervoso porque era minha primeira vez. Isso porque desde quando comecei a dar aulas para turmas universitárias – desde 2000 – eu sou generosamente lembrado para as formaturas, como professor homenageado, nome de turma e outras funções protocolares, mas nunca tinha  sido o paraninfo, o que fazia discurso. E isso me deixou nervoso demais. Paraninfos normalmente são políticos ou pessoas endinheiradas que pagam festas, jantares e carros novos para os formandos, e os perturbados amalucados dos meus alunos escolheram um micro-empresário com dois filhos, alguns financiamentos e a firme convicção de não pagar nem uma mariola para a turma. Todo mundo na faculdade sabe dessa minha opinião, e ainda assim me chamaram para paraninfo. Eu tinha que me esforçar.

.

Além disso eu tinha plena convicção da seriedade do momento, da presença de outros professores, dos membros da reitoria e do monte de convidados. Sem falar dos formandos, naturalmente. Estava gelado.

.

Uma das coisas que sempre critiquei em discursos de formatura era o tal do “no caminho pra cá pensava eu no que dizer”, porque isso me irritava profundamente. Então o sujeito foi chamado seis meses atrás para participar do evento e só pensou no que dizer no caminho pra cá? Isso é muito desrespeito. Então já  havia feito oito versões de discursos, todas solenemente jogadas no lixo por não achar que fossem boas o suficiente para aquele momento. A última versão – que teve alguns acréscimos e mudanças ainda na mesa da cerimônia – foi feito três dias antes, na véspera do final de semana. Preparei o discurso, deixei de lado e só fui ensaiar no domingo. Claro que durante as muitas vezes que li e testei a entonação do texto eu mudei um monte. Mas isso só serve para tranquilizar, não para acalmar.

.

Enfim, com o discurso impresso fui ao evento. Emocionante como sempre são esses momentos, e na minha vez de proferir o discurso, me embaralhei com a cadeira, pisei na barra da beca e marchei elegante para o púlpito. Me sentia como se fizesse o meu primeiro discurso, ainda lá no maternal quando devidamente trajado com um uniforme do Fluminense (escolha da criança que eu era), bola debaixo do braço, atravessei o palco, dei uma volta e fui até o microfone, proferindo solene: “Eu sou… (pausa dramática) o jogador de futebol!”. Começava ali uma história.

.

Enfim, cheguei ao púlpito, mexi levemente nas folhas do discurso que descansavam solenes (lembrando que o nobilíssimo professor Waldenir havia comentado sobre o tamanho do discurso – tarde demais, agora não seria possível cortar mais nada), e dei início.

.

Honestamente? Eu gostei muito. E pelo visto muita gente também gostou. O público aplaudiu de pé, longamente, conseguindo algo muito raro: me deixar encabulado. O reitor me cumprimentou efusivamente e os olhares dos alunos, os abraços dos professores e as maquiagens derramadas das mulheres me deram a confiança de que tinha feito um bom trabalho. Não satisfeito, o reitor – Professor Jovenir Cândido – se levantou e me fez levantar, me puxando pela mão em homenagem generosa e emocionante.

.

Só de lembrar agora já encho os olhos de água. Esses malucos e malucas meus alunos me deram um gigantesco presente, e atendendo uma dica da minha comadre Vânia Dourado, eis abaixo o discurso dessa noite tão linda e inesquecível para mim.

Boa noite,

Formatura é um momento repleto de clichês. A turma que se forma emocionada nos bastidores entre maquiagens e últimos detalhes das becas, os professores e funcionários da instituição de ensino felizes em ver a alegria de seus pupilos, as famílias empolgadas ao ver esse momento de celebração conjunta, os preparativos para a comemoração que virá depois, os parentes distantes que se reúnem depois de tanto tempo, os sorrisos de lágrimas úmidas, abraços apertados e o tremor na voz do padrinho da turma. Como disse o famoso russo, “todas as famílias felizes são iguais”, e um momento como esse é prova disso. Repleto de tantos fantásticos clichês. Clichê, que como sabemos, é uma expressão que de tanto ser usada já se torna previsível, e previsíveis são as formaturas. Que bom.

Clichês não são necessariamente ruins, simplesmente porque previsíveis. Alguns se revestem de infinita sabedoria e bom senso, perpetuando assim valores e crenças por gerações depois de gerações. Alimentando comportamentos e reforçando hábitos, os clichês por vezes se convertem em registros históricos de momentos que a sociedade viveu e não quer, não pode ou não deve esquecer. Parem um segundo, olhem em volta, esse é um momento que não deve ser esquecido, pois que se confirme então como clichê que efetivamente é. Olhem para seus colegas, vejam o sorriso, a ameaça de se borrar a maquiagem, o nervosismo mal disfarçado e tudo isso já foi visto milhares de outras vezes, principalmente por esses que agora se reúnem nessa grande mesa cerimonial. Seja pelo carisma honrado com homenagens ou pela necessidade protocolar da presença, esses olhos que aí se encontram já viram tudo isso montes e montes de vezes. E quer saber? Já viram montes de vezes, e nunca se cansam de ver.

Tantos outros clichês que temos hoje aqui representados e que também não nos cansam. A lembrança das infinitas horas dedicadas ao estudo, mesmo depois das longas jornadas de trabalho. As vezes em que a vontade de jogar tudo para o alto se desenhou como a melhor alternativa, e o orgulho, o comprometimento, a dedicação ou os colegas não permitiram o abandono do curso. Lembrar das provas e suas angústias, com o nervoso olhar de lado na sala de aula, a noite anterior mal dormida e os finais de semana dedicados às rodadas de estudo, que vez por outra se convertiam em momentos de integração e, porque não, momentos de farra. Festejando a avaliação que viria. Lembrar das apresentações de trabalho sempre tão recheadas de ansiedade e nervosismo, não pelo conteúdo em si tantas vezes revisado, mas sim pelo desafio de estar a frente da turma se expressando e defendendo suas ideias. Aposto que vai ser impossível esquecer ainda de algumas situações vividas, conflitos, problemas, romances, dúvidas, dores e sabores que vocês aqui reunidos viveram nesses últimos anos, formandos, formandas e familiares. Situações tantas essas que agora, nesse exato instante se repetem com milhares de outros estudantes, que diferentes de vocês formandos, se encontram no meio ou início de sua jornada. São lembranças que se repetem e por isso se tornam também clichês.

Porém os clichês que hoje celebramos, infelizmente não são os únicos que acompanham nossa existência. Temos também conosco as nossas cicatrizes e marcas de combate, as situações que se pudéssemos escolher teríamos deletado de nossas memórias para que esse momento de encanto e brilho pudesse ser perfeito e pleno. Mas a perfeição e a plenitude são objetivos que perseguimos, ainda que conscientes que jamais as alcançaremos, bem sabemos disso.

Esses clichês que poderiam enfeiar esse momento; e friso que poderiam, mas não conseguirão diminuir a cor e a luz dessa noite; esses clichês que integram e compõem nossos cotidianos. Trazidos pelos meios de informação ou por nossas percepções, esses momentos poderiam servir para nos derrubar ou menosprezar nossas conquistas, mas felizmente não conseguem esse intento. Então que nos façam refletir sobre a realidade.

Situações como a situação da educação pública em nosso país, tão tristemente avaliada e tão negligenciada por nossos governantes. Situações como guerras e matanças que acontecem mundo afora, manchando de sangue e tristeza comunidades e nações inteiras. Situações como as constantes revelações do mau comportamento da nossa classe política, que insiste em defender interesses mesquinhos e particulares, ignorando o bem comum e nosso povo. Situações que produzem tanto dano à nossa sociedade. Sociedade essa que sofre com cada decisão irresponsável dos que possuem poder, sociedade que agoniza com cada ato de crueldade ou frieza justificado pela correria, pressão ou stress.

Essa realidade dura e violenta não pode ser a única realidade. Essa realidade de compadrios, traições, falcatruas, mentiras e horrores não pode ser a única realidade. Nossa realidade não pode ser a dos envolvidos em corrupção ou de seus esforçados companheiros corporativistas, nossa realidade não pode ser a dos tiros na madrugada ou dos gritos sem resposta. Nossa realidade não pode e nem deve ser a das filas intermináveis em serviços públicos ineficientes e arrogantes. Nossa realidade não deve ser a realidade do desemprego ou do subemprego, com sua remuneração tímida e seu tratamento humilhante. A nossa realidade, queridos formandos e formandas, não pode, não deve e não precisa ser a realidade dos terroristas, dos traficantes, dos cruéis e dos corruptos. Nossa realidade não precisa ser a da tristeza e do risco que a lágrima faz no rosto do nosso povo.

E aqui falo de uma escolha: quais os clichês queremos para nossa vida? Qual a realidade que queremos construir? Pois eu digo que prefiro uma realidade diferente. Uma realidade que mostra que apesar de tantos monstros vigiando nosso sono, ainda temos esperança, competência e energia para alimentar novos sonhos. A realidade que eu prefiro é a realidade do sorriso e da dança, do mercado de trabalho que entende a presença dos tecnólogos como uma solução eficaz para resultados. A realidade que eu escolho é a realidade que vejo nas Congadas de Catalão ou nas Cavalhadas de Pirenópolis, com o povo feliz celebrando suas tradições mais caras. A realidade que eu quero é a realidade que valoriza o ser humano como agente de transformação e mudança, valorizando, sim, os que conservam, mas não demonizando, também, os que transformam. Prefiro uma realidade de aceitação do diferente, de compreensão da dificuldade, de auxílio às fraquezas e limitações.

Na realidade que eu prefiro viver eu vejo uma sociedade que une milhares de pessoas para marchar contra a corrupção debaixo do sol escaldante. A realidade que eu escolho para mim e convido vocês a escolher também é a de um povo que mesmo sofrendo, tomando chutes e sendo mal tratado, ainda assim se enche de orgulho para celebrar suas cores, sua história, seus valores e cada momento delicado e dedicado que seus filhos vivem e conquistam, em dias de usar roupa de festa, sapatos de ver Deus e o melhor sorriso no rosto. Esse povo que faz essa sociedade tão dinâmica e teimosa, que insiste em ir em frente. Sociedade essa que merece muito mais que o pão e circo que ainda insistem em usar para tentar nos controlar. Sociedade que produz pessoas como vocês, formandos e formandas aqui reunidos, que começam agora a construir uma nova realidade particular, prenhe de planos e projetos, carregada de teorias e conhecimento, urgente de resultados e conquistas.

Um outro clichê famoso seria o discurso do padrinho da turma oferecer conselhos e dicas. Desse clichê eu vou me poupar. Não vou lhes dar conselhos. Vou lhes fazer um pedido, ainda falando sobre realidades. Ousem. Ousem ao construir seu futuro, peço isso com muita humildade, porque preciso que vocês se comprometam com isso. Ousem, façam mais do que um dia pensaram que poderiam. Que suas histórias sejam lembradas, citadas em conversas de boteco, em discursos de formatura e que baseado em suas histórias novos clichês sejam criados. Por favor, não se conformem com o mediano, com o adequado. Sejam atrevidos como muitos de vocês se julgaram um dia ao investir num curso superior, indo além e muito mais longe que seus amigos e familiares pensaram. Ergam novos horizontes, desbravem, ousem.

Ajudem a construir um mercado que valorize as pessoas pelo que são e por seus resultados. Humanizado, valorizando as relações que temos ao longo da vida. Um mercado que preze a sua dedicação ao trabalho, mas também – e principalmente – sua dedicação à sua família, aos seus verdadeiros amigos, aos seus valores e amores. A realidade que queremos tem um monte de gente junta, rindo, suando, celebrando, trabalhando com orgulho e desenhando um novo futuro. Isso depende também de vocês, meus malucos formandos. E falo isso com propriedade. Vocês se lembram que esse ano passei por uma situação inusitada e inesperada: eu morri. Eu sofri um ataque cardíaco fulminante, morri e fiquei dois minutos morto, quando então me trouxeram de volta. Confesso que naqueles dias, logo após, não havia percebido o tamanho do que eu tinha vivido, fazendo piadas e brincando com o fato. Mas no dia da festa junina dos meus filhos, a primeira deles, de mãos dadas com minha mulher, quando vi os meus dois tubarõezinhos no palco, dançando e cantando, eu me toquei de que não era para eu estar ali. Eu não deveria estar vendo meus filhos cantando naquele momento porque havia morrido. Além de todas as explicações religiosas ou médicas, eu sei que vivo hoje cada momento feliz com uma intensidade muito maior. Espero sinceramente que vocês não precisem morrer para chegar a isso. E vocês farão esse seu professor imensamente feliz se se dedicarem sinceramente a construir uma realidade melhor e um mundo melhor. Feliz como me fizeram quando me convidaram para ser seu padrinho.

Muito, muito agradecido. Sucesso a todos vocês!

.

.

.

.

.

Aos meus alunos e alunas, formandos ou não, de hoje, de antes e de sempre, agradeço muito por me proporcionar a feliz experiência que dividimos em sala de aula. Muito grato mesmo!

.

.

Há braços

Eduardo Mesquita

eduardo@ideiadiferente.com

twitter – @eduardoinimigo

.

6 Comments to “Uma noite no púlpito – meu discurso como paraninfo de formatura.”

  • Vc é muito bom! rsrsrsrsrsrs Tem um fã. Como vc se despede: “há braços”

  • Emocionante. Gostaria de ter assistido o espetáculo. Digo espetáculo porque vc falando é realmente um show. Parabéns pelo discurso.

  • Caramba! como foi emocionante, tirei uma copia já devo ter lido umas 5 vezes e todas que leio eu choro… rsrsrs… levei pra umas amigas e elas leram e assim como eu choraram e muito realista…e cativante… adoramos seu jeitão de dar aula … rsrsrs assim e mais divertido … Obrigada Professor! você ja faz parte das nossas conquistas…

  • Realmente o que me falaram foi verdade, seu discurso foi mesmo emocionante, acho que posso dizer que foi o melhor que já vi até hoje, precisa ser passado para frente e que possamos refleti muito sobre cada palavra! PARABÉNS!

  • E muito bom saber que você também tem seus momentos de frio no estomago, como os demais mortais.
    Compartilho de sua preocupação, pois toda vez que falamos em público nunca conseguimos imaginar como será a receptividade e se o recado será entendido.
    Espero que você seja convidado mais vez.

  • Prezado Professor,
    Agradeço ter ouvido sua comadre e publicado este discurso maravilhoso. Fui eleita paraninfa e numa busca para achar as palavras que expressasem as minhas convicções, encontrei seu discurso que me inspiraram e por não conseguir dizer de outra forma, peço que me autorize a usar parte deste brilhante discurso, claro adequado ao contexto da minha realidade.
    Parabens!!! Muito sucesso!! Grata.

Post comment

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Contato

Ultimamente…

Random Testimonial

  • ~ Ivana Abreu – gerente geral da Clínica São Marcelo

    ""Fico muito feliz em poder contar com os seus maravilhosos conselhos, tenho certeza que só tem engrandecido o nosso trabalho, que voce sabe que não é facil. Apesar de sermos "muito bonzinhos" estamos aprendendo muito com você! Obrigada!"  -  Ivana Abreu, gerente geral da Clínica São Marcelo, cliente de consultoria estratégica desde"

  • Read more testimonials »

Powered by Twitter Tools