Sobre tempo de casa e técnicos de futebol.

Sou torcedor do Vila Nova Futebol Clube – http://www.vilanovafc.com.br/. Para quem não associou o nome à pessoa, o Vila Nova já foi o maior time do Centro Oeste, passou a ser um dos dois maiores, depois um dos três maiores e vem brigando para se manter como um dos cinco ou seis maiores. A torcida é apaixonada e dedicada ao time, e nesse quesito é inquestionavelmente única. Sempre houve um conflito grande entre a torcida do Vila Nova e de outro time da cidade (prefiro não mencionar o nome) sobre qual torcida era a maior. Isso é alvo de questionamentos e dúvidas, mas uma verdade absoluta é o fato de que a torcida do Vila Nova é muito mais apaixonada que qualquer uma da região, isso porque torcer para times que ganham e são campeões é fácil. Torcer para um time que já há alguns anos não chega a final de campeonato, não sobe para a tão sonhada Série A e não ganha clássicos; isso sim é ser torcedor apaixonado. A torcida do Vila Nova nunca diminui, apesar dos insucessos e tropeços, das diretorias desastradas, jogadores mercenários e “zoações” das outras torcidas. Permanece, continua, persevera e viveu uma situação muito específica dias atrás.

Futebol é uma coisa complicada porque é um negócio, é trabalho, mas para a torcida é paixão, fanatismo, fé e irracionalidade. Sendo assim as pessoas possuem diferentes visões das mesmas situações. E dias atrás isso foi colocado a prova novamente. O Vila Nova contratou o Sr. Hélio dos Anjos como técnico do time. De novo, quem não associou o nome à pessoa terá explicação: esse técnico tem um histórico de vínculos e conquistas com o outro time da cidade, o rival eterno do Vila Nova. Então quando da sua contratação muitos alegaram que ele iria trazer problemas, corpo-mole, má vontade e até mesmo azar para o time; além do fato de ele já ter sido contratado uma vez e deixou o time na mão.

Pois dessa vez ele levantou polêmicas novamente. Com o campeonato em andamento, com poucas rodadas ele recebeu uma proposta de um time do nordeste (time em que ele já tem uma história de sucessos também) e foi-se embora. Vários torcedores reclamaram e ofenderam o sujeito alegando que ele deixou o time na mão, que ele é mercenário, que ele foi traíra, que ele novamente prejudicou o time e mais um monte de dramas e reclamações apaixonadas.

Mas se analisarmos a situação de outra forma, veremos outro fato. Hélio dos Anjos é técnico de futebol, se bom ou ruim não interessa; essa é a profissão dele, ele vive disso. Mesmo podendo ter inúmeros investimentos, posses ou o que quer que seja, ser técnico é um trabalho para ele. Profissionais podem ser seduzidos e cooptados no mercado, faz parte da competitividade natural entre as organizações, e quem é bom profissoinal precisa ser constantemente assediado até para comprovar seu valor. Você profissional, que lê isso aqui, já parou para pensar quantas vezes tentaram te “roubar” da sua atual empresa? Isso é um indicador muito forte da sua visibilidade no mercado.

O técnico recebeu uma proposta financeira muito boa, em uma empresa (time) que ele já tinha um histórico de sucessos e foi-se embora. Estava errado? Até o momento, nada de errado nisso. Até muito natural.

Mas o mais importante é perceber o que ele fez enquanto esteve no time do Vila Nova. Apesar de não vencer clássicos, o time está bem posicionado na tabela, ganha jogos e mesmo com algum sofrimento, vem mantendo sua torcida satisfeita. E então o técnico vai embora. Mas atenção, sucesso se mede por resultados, e os resultados até o momento são bons. Que se vá, então.

Ainda existe um equívoco muito grande no mercado de trabalho, o de achar que tempo de casa é sinônimo obrigatório de competência. Não é. Muitas vezes é acomodação ou incapacidade de crescer, a pessoa “bateu no teto”, como dizemos. Vejo ainda muitos empresários indagando nos processos seletivos: “Mas esse candidato, se for selecionado, vai ficar muito tempo conosco?”. Primeiro que é impossível prever o futuro, então como saber quanto tempo o sujeito vai ficar na empresa? Não há como. E mais ainda, se ficar seis meses mas fizer um trabalho sensacional, conquistar grandes resultados, impressionar a equipe positivamente, servir de exemplo para outros, então já fez o que era necessário.

Existe um clichê popular associado a falecimentos. Dizem que a pessoa falecida “cumpriu sua missão”, e essa é uma justificativa para não sofrer tanto com falecimentos precoces, por exemplo. Pois o profissional que fica pouco tempo mas que deixa uma marca positiva e inesquecível já cumpriu sua missão.

Me lembro de uma oportunidade em que eu era Gerente de RH de uma indústria e conduzia um processo seletivo. O diretor da indústria ao ver um currículo que eu havia separado comentou “Esse aqui não vai servir, ele nunca fica mais que três anos em empresa nenhuma”. Eu dei risada e abri o meu currículo na tela do PC, o mesmo currículo que ele havia lido quando da minha contratação, e perguntei: “Então como você contratou esse cara aqui?”. Eu nunca havia ficado mais que DOIS anos em empresa nenhuma. Rimos muito da situação, o sujeito foi bem na entrevista, mas ainda assim tivemos um outro candidato muito melhor e ele não foi contratado. O curioso foi ver que mesmo eu tendo esse movimento constante no mercado, estava sendo um profissional de resultados para a empresa.

Então o técnico foi embora? Bom para ele, fez o seu serviço aqui, foi reconhecido e seguiu seu rumo. Que as organizações estejam preparadas para esse ciclo constante de movimentação, porque essa vai ser a realidade cada vez mais inegável no mercado. A tal Geração Y não aprecia ficar parada muito tempo, então ao invés de somente nos preocuparmos em manter as pessoas nas empresas por muito tempo, vamos nos preocupar em proporcionar desafios, crescimento, novidade e criar estruturas para permitir mobilidade para as pessoas. Deixa sair, novos virão e abriremos espaço para promover os que permanecem.

A fila anda! E o Vila Nova venceu mais uma nesse fim de semana. Ê Tigrão, que me dá alegria! (torcedor de futebol é um bicho maluco mesmo).

.

.

.

Há braços!

.

.

Eduardo Mesquita

eduardo@ideiadiferente.com

twitter – @eduardoinimigo

.

Adicionar a favoritos link permanente.

3 Comments

  1. Heee Vilanovense de coração!!!
    Mas a respeito a sua critica,muito interessante…tempo de casa não diz nada,mas sim a produtividade do cara neste tempo,o que ele fez pela empresa,o que conquistou,isso sim conta muito!abs

  2. Belo texto, tempo de casa realmente não quer dizer muita coisa. Ainda mais quando a empresa (VILA) não possui condições de manter os profissionais necessários para se tornar campeão de algo. O fato de não mencionar o nome do GOIÁS não entendo o pq. Somos apaixonados e irracionais quando o assunto é futebol, mas não vamos trocar tapas por isso. A rivalidade (concorrência) é essencial em qualquer mercado, isso vale para o Futebol.
    Vida longa a rivalidade regional e ao futebol goiano.
    T+

  3. Muito bom o texto, concordo plenamente com você. Na minha opinião o bom profissional tem que ser diversificado, estar sempre aprendendo e se movimentando, o próprio mercado exige isso, eu mesmo só fico em uma empresa se existe algo me motivando, caso contrário não tenho medo de recomeçar, até mesmo porque essa idéia de “vamos reter talentos” é bobagem, na realidade as empresas brasileiras não fazem nada de muito concreto para reter seus profissionais e o ser humano precisa sentir-se valorizado, seja por metas, dinheiro ou novos desafios, a verdade é que quando se fica muito tempo em uma mesma situação, você perde a identidade própria, passam-se os anos e você um dia para pensa “cade eu”?????
    bjs.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *