Sobre Kossa, desprezo, música e gerentes.

Vê esse sujeito feio na foto? Ele é Pablo Kossa, jornalista, funcionário público, agitador cultural, gente finíssima e um cara que tenho a honra de chamar de amigo. Ele tem um blog/site onde solta suas ideias e pérolas, e elas são muitas. Tanto umas quanto outras.

Dia desses ele soltou um texto falando sobre o Villa Sertaneja, uma espécie de festival de música sertaneja que aconteceu em Goiânia e que mobilizou muito dinheiro, gente, investimento, divulgação e grana (sim, a redundância é proposital). O texto está aqui – http://fosforocultural.com.br/pablokossa/?p=661 – e espera seu olhar. Vai até lá e depois volta aqui, eu te espero.

Enfim, depois de ler esse texto do Kossa fiquei encucado com o incômodo gerado, e percebi que o incômodo não era pelo amigo ou pelo jornalista, mas pelo profissional em sua abrangência maior. Falando de forma direta, o consultor de empresas que sou, o psicólogo corporativo que estou certamente colocaria em xeque um profissional de comunicação e eventos que ignorasse tão completamente um evento que teve tanta comunicação. A frase que mais me chama atenção no texto do compadre Kossa é quando ele é perguntado se não ouve a rádio em que trabalha.

Isso realmente foi o mais grave. Me lembro de uma diretora que tive a honra e orgulho de trabalhar numa cervejaria e que me disse uma vez que não devíamos deixar o cliente tomar o primeiro copo de outra marca, porque aí poderíamos perdê-lo para sempre. E isso reforçava ainda mais o que vivíamos todos os dias de respeito e cuidado com a marca que representávamos, e que em última instância nos permitia comprar coisas. Pois aquela era a marca que nos pagava, dando dinheiro em troca do suor e do conhecimento. Como então permitir que outra marca tivesse nada além de meu cuidado e minha atenção?

E Kossa, em seu descaso pelo estilo musical do evento, revela descaso por sua atividade. Entendo não se interessar por eventos congêneres – e os comentários abaixo de seu texto são outra fonte de informação excelente que compõem o quadro – mas como alguém da área de eventos penso que ele deveria ao menos manter o olhar sobre eventos paralelos, que de uma forma ou de outra disputam patrocinadores e público com os que ele organiza.

Alguém pode dizer que são públicos diferentes, mas lembrem-se todos que são públicos predominantemente jovens, em ambos estilos, e que famosos são pela instabilidade, volatilidade, modismos e quetais. Hoje ouvem sertanejo, amanhã podem estar em festivais de rock ou de funk ou de sambão.

Reforço, não acredito que ele devesse prestar atenção ao festival, já que não aprecia o estilo musical, mas por ser um evento musical, isso deveria despertar-lhe ao menos a curiosidade. Talvez eu seja um yuppie formado pelas guerrilhas de mercado dos anos 90 realmente, momentos em que aprendíamos a devoção às marcas e atividades, e qualquer coisa que pudesse nos roubar pontos de Market share eram vigilantemente acompanhadas. Talvez ainda Kossa esteja num momento de sua vida que realmente não se estresse mais tanto assim, porque afinal de contas pode ser avaliado como um cara profissionalmente muito bem sucedido (e não sou irônico mesmo nesse ponto). Por bem sucedido entenda-se que não esteja preocupado em excessos com pontos percentuais de lembrança ou por corpos presentes. Tem um emprego público, tem uma carreira bem construída e agora empreende na área cultural.

Mas fosse um gerente de empresa cliente minha e eu colocaria toda a atenção em seu comportamento. O mundo corporativo que vivo é paranoico realmente e aí pode residir o incômodo que senti ao ler o texto. Um profissional não pode desprezar novos entrantes ou possíveis concorrentes em sua área de atuação, é um dos credos que vivo; e negligenciar um troço daquele tamanho com aquele tanto de propaganda é sentir-se muito tranquilo para poder escolher em que dedicar sua atenção.

Me lembro de um amigo publicitário que ao parar em sinaleiros pegava todos os panfletos, flyers e folders entregues, e se algum entregador não o abordava ele buzinava e chamava para pedir um tablóide impresso. Isso tudo para monitorar o que andava sendo produzido de divulgação naquele momento, podendo ter ali algum concorrente de cliente seu. Aprendi muito com esse sujeito também.

Não quero em nenhum momento dizer que Kossa está errado. Isso seria fanatismo. Quero dizer que nesse aspecto pensamos diferente, e se estivesse no estúdio da rádio naquele momento seria mais um a dinamitá-lo por não saber do tal evento musical. Curioso é ver que ele diz em outro momento – http://geracaobooks.locaweb.com.br/releases/?entrevista=81 – que “é impossível passar indiferente” por um ícone cultural inglês, mesmo aparentemente agora sabendo que até por grandes ícones é possível SIM passar indiferente. E a vida segue. Não comparando as referências, naturalmente. Outra coisa que não concordo com o texto é a aparente “metropolidade” de Goiânia. Não temos uma cidade tão enorme assim, que permita desconhecer o que acontece em proporções maiores, mas entendo que o rock também seja desprezado e ignorado por muitos da cidade por opção e escolha.  Gente que pensa do rock o mesmo que Kossa pensa do sertanejo, isso eu sei.

E sei mais ainda, por aprender ao longo de 40 anos de existência, que o contraditório é muito mais enriquecedor que a unanimidade. Andar com pessoas que apreciam as mesmas coisas que eu em todos os momentos seria negar a oportunidade intensa de conhecer um pouco de um monte de coisas que o mundo oferece. Falo isso com a tranquilidade de um psicólogo consultor de empresas que não esconde – e até divulga sempre que pode – o fato de ser vocalista de punk rock no SANGUE SECO. Já tive oportunidades de encontrar clientes em plateias de shows da banda, e num primeiro momento ficar mortificado com a possibilidade de perder algum contrato – já que o rock não paga nem minhas contas nem meus prazeres. Mas percebo que a maioria esmagadora desses que me contratam apreciam muito mais o perfil confuso que se desenha entre o cara de terno e o sujeito de jeans aos pedaços. E curiosamente as ideias e ideais do consultor e do vocalista são as mesmas, mas umas são vertidas em treinamentos e reuniões, e outras são urradas nos palcos e microfones.

A prova disso vai acontecer no dia 06 de março, quando o SANGUE SECO vai participar do Grito Rock Goiânia, no Centro Cultural Martim Cererê. Sei que terei vários clientes, alunos universitários e amigos na plateia, vendo que extremos às vezes antagônicos podem ser muito bem convividos. E o Grito é organizado pela Fósforo, entidade cultural capitaneada por Pablo Kossa. No fim, estamos todos próximos.

Aparece no Grito Rock e confere. Teremos muito barulho nervozzo de gente extremamente amigável. Confere a programação e se organiza, e lá você vai poder conhecer o Kossa e comprovar que, mesmo desprezando música sertaneja, ele é gente finíssima. Até porque uma coisa não tem nada a ver com a outra. rs

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Há braços!

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Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei

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twitter – @eduardoinimigo

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Um Comentário

  1. Tudo bom, Eduardo? Sou amigo do Guga e fui padrinho de casamento dele, juntamente com você. Cara, li todo o texto do kossa (um profissional que respeito muito). Cheguei a estudar com ele, na época em um cursinho pré-vestibular chamado Interativo [“engraçada essa coisa de destino… Interativo, Interativa…”], e fui também meio que um colega/pupilo dele, quando tive uma pequena coluna na revista Bella Vip. Ele provavelmente não se lembra de mim, pois tivemos muito pouco contato. Mas voltando ao assunto, estou aqui novamente para terminar de ler o seu post. Endosso suas palavras: “[…] o contraditório é muito mais enriquecedor que a unanimidade.” Acho que pode ser extremamente perigoso o fato de estarmos “antenados” apenas onde nossa atenção seletiva enxerga, principalmente para um profissional da comunicação. Estou incluso na lista dos que estranharam o desconhecimento dele a respeito de um evento tão veiculado em várias mídias, independentemente do gênero musical. Tudo bem, isso pode acontecer com qualquer um, mas tive a impressão de que ele se irritou com o espanto das pessoas. Devo reconhecer a maturidade do seu texto, raciocínio, bom senso, ética e atitude “lóki” rsrs. Brilhante o seu posicionamento! Parabéns, mestre! E que o Kossa não se ofenda. =)

    Um grande há braço pra você!

    Elisandro.

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