Ricardo Gomes e Sócrates – doentes diferentes.

Dias atrás Ricardo Gomes, ex-zagueiro da seleção e atual técnico do Vasco da Gama, sofreu um acidente vascular cerebral com hemorragia. Quadro grave que pode matar.

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E durante a semana vimos inúmeras homenagens à Ricardo Gomes, mandando energias positivas via faixas em estádios, hashtags no twitter (#forçaRicardo quase foi TT por alguns dias) e homenagens nas camisetas de vários times em seus jogos. Junto aos nomes e números dos jogadores muitos times colocaram a frase “Força Ricardo” ou então o próprio nome do treinador. Alguns times, como o Vasco do qual ele é técnico, se reuniram em rodas de oração antes e durante os jogos, todos torcendo pela pronta recuperação de Ricardo Gomes. O que felizmente parece que está acontecendo, com relatos de reconhecimento de parentes, respostas à comentários sobre os resultados do time cruzmaltino e alguns outros sinais de restabelecimento.

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Semanas atrás Sócrates, ex-meio de campo da seleção, médico – daí a alcunha “Dr. Sócrates” – e atualmente comentarista de futebol, sofreu grave hemorragia digestiva. Quadro grave que pode matar.

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Posso estar incorrendo em alguma injustiça, mas não vi nenhuma oração, homenagem ou coisa semelhante ao sujeito magrelo que ensinou a jogar com o calcanhar, que orquestrava a maravilhosa seleção de 1982 e que trouxe tantas e tantas alegrias ao Sport Club Corinthians Paulista. Cabe comentar que ele já saiu do hospital e se recupera com restrições severas aos seus hábitos, dos quais comentaremos mais adiante. O que chama atenção é que não vi faixa, não vi roda de oração, não vi camisetas de times com a frase “Força Doutor” ou sequer alguém tuitando #forçaDoutor. Nada.

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Achei intrigante. A torcida corintiana é gigantesca, uma das maiores do país e a memória do que Sócrates fez pelo time é de proporcional tamanho. Além disso as lembranças das belas atuações do Doutor pela seleção já justificariam algumas lágrimas tímidas em programas de auditório. Mas ninguém apareceu para verter lágrimas pelo Magrão.

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Da dúvida para uma hipótese foram alguns dias. E confesso que a hipótese que eu cheguei me dá alguma alegria. Veja bem, não fico alegre pela falta de homenagens a um ou pelo tanto de homenagens ao outro, fico alegre pelo motivo da escolha das pessoas.

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Ricardo Gomes sofreu um ataque que não escolhe vítimas, que é silencioso e cruel e que independe de maiores esforços para surgir. Prova disso é que aconteceu com um sujeito de comportamento – publicamente conhecido – regrado, comportado e discreto. Já o Doutor Sócrates sofreu de um problema causado em grande parte pelo seu alcoolismo, uma doença sem dúvida, mas com grande parte de opção pessoal.

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Não quero dizer com isso que os alcóolicos e alcoolistas, dependentes químicos em específico e em geral, são assim simplesmente porque querem. Não são assim simplesmente porque querem, mas são assim porque querem; trata-se de uma doença que encontra seu combate na disposição particular, na escolha individual e no comprometimento com sua própria melhoria. Não é um combate fácil, não é uma escolha simples, porém diferente de um AVC as dependências químicas encontram sucesso em sua superação quando paciente se esforça para isso.

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Sócrates, em entrevista para um periódico televisivo, contou entre um sorriso sardônico e um ricto de contrição que bebia regularmente em bases diárias. Bebia de manhã e de tarde, bebia por vezes mais de um litro de vinho ao longo do dia. E uma pessoa simplória, sem informação formal ou diploma, consegue entender que o consumo diário de álcool, principalmente durante a jornada de trabalho, é algo pouco recomendado, fora do padrão ou errado mesmo. Uma pessoa simplória consegue entender isso. Sócrates é médico. Sendo médico sabe de todos os riscos e consequências que o vício poderia lhe trazer e causar, não podendo alegar o desconhecimento do problema.

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E quando as pessoas resolvem homenagear um e não homenagear o outro eu posso entender de diversas formas. Uma maneira de interpretar é falar que o técnico vascaíno está constantemente na mídia e o ex-jogador já não tem tantos holofotes mais. É uma interpretação válida, dentre tantas que podem surgir.

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Mas o que preferi entender é que o público em geral sofreu com o problema surpreendente de Ricardo e repreendeu o problema esperado de Sócrates. Uma espécie de bronca no sujeito que fez uma escolha tão deletéria e problemática, não querendo ser cúmplice do erro do outro. Ao que parece um foi visto como “doente” e o outro como “viciado”, “bêbado”, “pinguço” e outros apelidos menos elogiosos ainda. Sabendo que ambos são doentes, de doenças diferentes, porém ambos doentes.

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Por esse prisma então o povo viu a dependência química como algo errado? Louvável atitude. E quero deixar claro que não estou aqui condenando o uso dessa ou daquela substância, não é esse o propósito. Condeno aqui a dependência sem combate, a entrega ao vício, a rendição a uma condição mal vitimada de “coitadinho”. Quem se entrega a esse papel, não espere parceiro de lágrimas. Não aqui.

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E o povo mostrou, pelo pouco envolvimento, pela pouca expressão emotiva – tão cara aos brasileiros – que não concordou com os rumos que Sócrates escolheu. Que isso, mais que as proibições médicas, o façam tomar mais cuidado, refletir sobre seus prazeres e lembrar que quem mais sofre com o vício não é o viciado, mas quem o ama. Familiares, amigos, fãs, que sofrem na perda do referencial, na angústia de esperar atitude e resposta que nunca vêm, no sofrimento mudo de sequer poder reclamar sem o risco de uma tempestade instalada em suas vidas. Outra. Mais uma.

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Os acontecidos com os futebolistas podem nos ensinar valiosas lições. Que cada um saiba o tamanho do seu prazer e a extensão dos riscos a que se expõe. Pelo visto, de agora em diante, ao menos uma frente de solidariedade está extinta: a popular.

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Bom sinal!

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Há braços!

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Eduardo Mesquita

eduardo@ideiadiferente.com

twitter – @eduardoinimigo

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3 Comments

  1. Sem dúvida os adictos tiveram a escolha quando iniciaram seus trabalhos alcóolicos. Não apanharam o alcoolismo como se tem um AVC.
    Cabe salientar, no entanto, que quando iniciamos na bebida, não sabemos se nossos neurorreceptores vão nos “viciar” ou não. Faço uso regular de álcool às quartas e aos sábados, mas posso tranquilamente passar semanas sem o ingerir, pois meus neurorreceptores não me “viciaram”. Quando a pessoa vicia, aí a coisa é mais complicada do que uma simples escolha “não quero beber”.
    Na outra ponta, pessoas com maus comportamentos alimentares e poucos hábitos saudáveis (como atividade física) estão cavando seus AVCs também.
    O problema é que o Ricardo ta na mídia, o Sócrates não. O Ricardo não tem o estigma do pinguço, o Sócrates tem. Mesmo as doenças sendo diferentes, há muitos pontos em comum entre elas, não necessariamente nesses dois doentes.

  2. Quando comecei a ler o seu artigo achei que fosse descordar de vc,mas no decorrer da leitura comunguei com tudo que vc disse,faço das sua palavras as minhas.

    Abraço!!

  3. Legal sua colocação Eduardo Inimigo, penso que é fácil sentar em cima do próprio rabo e trincar o pau no rabo dos outros…, Brasileiro, não generalizando, tem esse péssimo habito, quantos pé de cana tem por ai e se acham normais e que com certeza criticaram o Dr. por tomar umas e outras…., abraço e vamos que vamos…

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