Reinvenção, renascimento, novos caminhos, tudo isso no rock.

Normalmente aqui no site da IDEA abordamos assuntos corporativos, e os assuntos do rock ficam no site Inimigo – www.ogritodoinimigo.com – mas por vários motivos o rock invadiu essas paragens dessa vez. Sim, é isso mesmo!

Hoje em Palmas tem início o Oitavo Tendencies Rock Festival, no Tendencies Bar (veja programação láááá no fim do post) do meu amigo André “Porkão” Donzelli (na foto abaixo é o de boné, o de bandana é Blaze Bayley e o sem nada na cabeça – literalmente – sou eu), e só isso já justificava esse texto estar aqui. Isso porque a história do Tendencies é uma história de um profissional que sempre se levou muito a sério (mesmo que não salte aos olhos de quem o vê), que cresceu em sua carreira graças aos seus esforços e dedicação, que ousou ao mudar de estado e começar sua história numa cidade nova, e que hoje é uma referência em bons serviços e no envolvimento e construção da cultura numa região que precisa de todos os esforços dele e de outros bravos guerreiros.

Além disso, o site da IDEA comporta esse texto também porque o festival que se inicia hoje é outra história de sucesso e atrevimento, já tendo levado para Palmas uma  enormidade de artistas, bandas, profissionais de todos os cantos do mundo para alegria de um público que cresce e se estabelece ano após ano. Na quente capital tocantinense o Tendencies é uma história corporativa para ser usada em cases e estudos avançados de empreendedorismo, administração, gestão de pessoas, gestão comercial e marketing. Mas, por incrível que pareça tudo o mais, não é por isso que esse texto veio para cá.

Ajuda muito o fato do site Inimigo estar com problemas técnicos e fora do ar; mas realmente trouxe essa história para cá porque é uma história de renovação, de uma reinvenção e de uma turma atrevida, indecentemente ousada e que prova pelos resultados que seus esforços valem a pena.

Estou falando de uma banda daqui de Goiânia, a Girlie Hell. Uma banda de rock feita por mulheres. E isso já seria motivo também, em um ambiente machista e preconceituoso como ainda é o ambiente corporativo (e o rock não é diferente), ter uma banda só de mulheres é provar-se diferente e digno, sem precisar opinião ou conselho de quem quer que seja. Usando um mote machista, diria que tem que ser muito macho pra se ter uma banda só de mulheres.

Girlie Hell – vá até o http://www.myspace.com/girliehell para conhecer um pouco mais – nunca foi uma banda que se destacou aos meus olhos e ouvidos. Bom, talvez aos olhos por se tratar de um monte de gurias bem atraentes, mas não aos ouvidos porque sou acostumado e criado aos sons pesados e raivozzos do punk rock. As Girlies fazem um hard rock que é divertido, mas nunca me empolgou o suficiente.

Acontece que no ano passado fui à Palmas para fazer a cobertura jornalística do festival e teríamos um show delas. Como sou dublê de jornalista, nem sempre pesquiso antecipadamente para me preparar da forma certa para a cobertura de um evento, então fui sem grandes expectativas e curiosidades sobre o show delas. Tinha minha intenção focada principalmente na atração internacional daquele festival, Blaze Bayley, ex-vocalista do Iron Maiden, uma lenda do rock pesado.

E o show do Blaze se mostrou muito mais do que eu poderia jamais imaginar em qualidade. Só que outras coisas saltaram aos meus instintos – e quando o site Inimigo voltar ao ar você vai poder conferir as resenhas por lá. Descobri que Dado Villa Lobos tem olhos inexpressivos de tubarão, descobri que Digão é um sujeito muito detestável, descobri que Canisso é uma figura gentilíssima, descobri que Mozine e Paulista e Brek e Sandro eram sujeitos ainda mais legais do que eu imaginava, descobri que Palmas produz boa cachaça e descobri uma banda de meninas que destruiu tudo.

O show da Girlie Hell foi incandescente, para dizer o mínimo. E a ida para lá foi cheia de tropeços e problemas (como você vai ler no texto da Carol, baterista da banda, que vai abaixo), a banda estava num momento ruim e tiveram no Tendencies o “seu momento mais lindo” (como diria Brian May, guitarrista do Queen, no primeiro Rock in Rio). Saíram de lá renovadas, reinventadas e com energia para destruir e criar.

Eis o que eu disse sobre elas naquela resenha de 2010:

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A tarefa das Girlie Hells já seria difícil normalmente. Primeiro show em Palmas, desconhecidas da galera tocantinense, banda de mulheres (sim, o rock ainda é muito machista) e logo depois dos primos atentados do Espírito Santo, Os Pedrero. E aí ficou ainda mais complicado quando a vocalista Sarah não pôde ir. Pedreira.

Entraram ainda meio nervosas, era nítido. Mas logo mostraram que não estava ali pelo charme dos olhinhos doces, e enfiaram rockão bruto nos tímpanos e intestinos da galera. O povo delirou! Duvido que as Girlie tenham tido platéia tão intensa como tiveram em Palmas, porque foi lindo de ver. E logo a banda estava solta no palco, com caras e bocas, poses clichês das guitarristas e tudo que pode ser feito pela diversão.

Digo que é melhor não faltar ao trabalho, para que não percebam que você não faz falta. Não é o caso da Sarah ou das Girlie, que mais que banda são muito amigas, mas Bullas segurou o vocal com firmeza e conduziu o show de forma cuidada. Quando tocaram Judas Priest a casa veio abaixo, e eu achei uma puta boa escolha de cover, claro. Rockão cru, tinha gente uivando na platéia. A nova baixista comenta “foram 13 horas de viagem, mas valeu a pena!” e a plateia delira, todos amam Girlie Hell.

Olhando agora nas anotações vejo isso “Eu me lamentava de nunca ter visto um show inteiro das Runawayw ou da Joan Jett, agora tem Girlie Hell” e como por encomenda do altíssimo, nesse exato momento – coisa de poltergeist mesmo – elas tocam Runaways!! Tive que mostrar pra Mari e pro Lopêêêêzzzzz para que alguém comprovasse essa sincronia demoníaca.

Samia, vocal do Boddah sobe pra cantar “Get off” e o público aprova. A sintonia é fina, a grungegirl cantando hard rock fica bom e é nítido que ela sente falta da guitarra. Mas ainda assim foi um final apoteótico para um grande show.

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O Oitavo Tendencies Rock Festival que começa hoje vai ter novo show da Girlie Hell, e por tudo que já se viu, vai ser novamente um arraso sem precedentes. Mas a Carol pode contar isso melhor que eu. Volto no final… divirtam-se!

Fala Carol Pasquali…

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Nossa participação do Tendencies Rock Festival de 2010 foi essencial para a sobrevivência da banda. Sem exageros. Sem o show em Palmas a banda teria se desfeito em pouco tempo. O calor daquele show e nosso desapego por fazer o show meramente por nossa diversão. Lembro que na ida pra Palmas – de ônibus – o ar condicionado quebrou por volta das quatro da manhã, ou seja, ficamos dentro de um ônibus vedado das 04 da manhã ao meio-dia, com um sol rachando e só com a entrada de ar do teto trazendo um ventinho. Realmente só queríamos quebrar tudo no palco. E ficamos muito surpresas com nossa execução e com a reação da plateia. Aquele show foi ensaiado uma única vez à meia-noite do dia anterior a viagem. Não tínhamos a mínima noção de como as coisas iam sair.

Não somente o público nos deu vontade de continuar. Toda a produção do evento teve sua parcela nessa energia nova. Com tudo que estava acontecendo fomos muito bem recebidas pela equipe do Tendencies, passamos uma manhã quente com nossos amigos do Hellbender e outros perdidos no hotel. O André foi super receptivo com a gente, se prestou a ouvir todos os problemas pelo qual tínhamos passado e disse de prontidão “conheço neguinho que não teria nem pensado em uma saída” e com um sorriso sincero e malicioso como quem diz “arrebenta tudo logo” ele disse: – Vai dar tudo certo.

E deu. Fomos passar o som no fim da tarde, mas a equipe detalhista e preocupada dos Raimundos ocupou toda a tarde montando palco e ajeitando o som. Sem passar som, morrendo de calor e nervosas esperamos nosso momento de subir no palco. E antes da deixa, um alvoroço atrás do palco de pessoas tuitando e atualizando toda a rede online do evento, só ouvimos um comentário meio baixo meio alto do Eduardo “agora eu quero ver”.

Subimos no palco, montamos tudo, uma equipe muito bacana nos ajudou com tudo e aí… O cubo do baixo simplesmente desligou e nada conseguia trazê-lo de volta. Uns minutos constrangedores em cima do palco, com as luzes acesas na nossa cara, a galera fervorosa esperando os finalmentes da noite (Hellbenders e Raimundos), um calor desmontando tudo que restava da nossa make-up… Quando o cubo resolveu voltar. Aí a Bullas olhou pra Kaju, pra Fer, pra mim e só mexeu a boca “é agora… vamo lá” e começou o riff da primeira música.

No começo não foi fácil. Mas quando todo mundo chegou pra frente, quando as cabeças começaram a balançar e algumas pessoas até arriscavam uns passinhos nas músicas mais baladinhas tudo fez sentido.

Quando o show acabou saímos enlouquecidas do palco. Superfelizes com o resultado. Claro que toda essa empolgação era só nossa, praticamente ninguém ali sabia como estava sendo nossa noite. Ouvimos alguns parabéns tímidos das pessoas que passavam por ali. Quando resolvemos sair pra pegar umas cervejas, várias pessoas nos cumprimentaram pelo show, alguns ali ainda meio perdidos com os nomes e outros esqueceram das mudanças, chamando a Fer de Lola (antiga baixista) e outros até ousaram chamar a Bullas de Sarah. Mas tudo foi recebido com a maior festa. Ninguém ali estava mais feliz do que nós.

Depois de acalmar um pouco os ânimos começamos a conversar sobre o que tudo aquilo significava. Retornamos ao backstage e acessamos a internet pra ver se alguém havia comentado algo. E aí nos deparamos com curtas frases do Eduardo no twitter elogiando o show.

No dia seguinte, em seu site, o Eduardo posta tudo sobre a noite anterior. Entre suor e a pinga que ele tinha ganhado, um paragrafo dedicado a nós. Ok, o site está fora do ar nesse momento, não deu pra acessar os arquivos… Mas de toda forma, o que estava escrito lá eram palavras que nos soaram como incentivo, como palavras de “nao parem”. Se não foi isso, não queremos que ninguém nos avise, porque de fato aquilo fez a diferença. O mesmo cara que, quando a banda se lança, vai no show e diz que aquilo era um rock feito por meninas que acabaram de sair da adolescência, sem peso e sem velocidade, agora vê em algum lugar, longe ou não, um potencial que poderia ser aflorado.

E foi justamente o que fizemos. Nos trancamos um ano no estúdio. Sem show, sem gravações, absolutamente nada. Já haviam boatos que a banda teria acabado. Pra mudar a cara não bastava mudar as roupas, trocar alguns músicos… Mudamos TUDO. A banda hoje tem outra cara, outro som, outra pegada. Gritos, headbenders, suor e porrada agora são palavras que agregamos à banda e aos shows. A nova Girlie Hell, que apelidamos de 2.0, já está com o set praticamente todo reformulado. Ainda não tenho certeza se para esse nosso retorno à Palmas só terão novas. Estamos fazendo um certo suspense pois pretendemos lançar algumas coisas esse ano com exclusividade, então estamos amarrando o máximo. Mas uma coisa eu já adianto, o show no 8º Tendencies Rock Festival vai ser o primeiro lugar onde vamos tocar a música que dará nome ao nosso primeiro álbum, Black Dreams. Partindo dele, todos terão uma noção do que vai rolar daqui pra frente. E outra coisa eu também posso adiantar, estamos tendo vários problemas pra conseguir ir pra Palmas. Coisas bizarras, tipo o voo de uma passagem que tá paga a mais de dois meses foi cancelado com 10 dias de antecedência. Coisa de louco mesmo. E isso só pode significar uma coisa: o show vai ser foda.

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Entendeu o motivo desse post no site da IDEA? Uma empresa de consultoria estratégica, de treinamento e capacitação, de formação de profissionais é uma empresa que acredita em mudança, em novos rumos, em melhorar sempre. A história dessa banda que orgulhosamente eu postei aqui é a prova de que vale a pena arriscar. 13 horas de viagem sem saber o que seria, com presságios maléficos, com ventos atrapalhando as velas e elas voltam de lá com os dentes trincados, com um olho vermelho e o outro pingando sangue, com vontade de seguir em frente numa atividade que é mais festa e ideologia do que qualquer coisa.

Falei essa semana com meus alunos na faculdade que não entendo uma pessoa que não corre riscos. Respeito a cautela, mas nunca vou respeitar o medo exagerado, a covardia, a fuga. O rock ensina e não faz reféns, diz o baterista da minha banda, Aurélio, e a cada dia confirmo isso ainda mais. Porkão correu riscos, ousou e hoje colhe os frutos de seu atrevimento. Girlie Hell correu, se lançou e hoje sente o prazer da vitória de quem tenta sem medo. Quer mais exemplos de superação para sua vida?

Aparece hoje em Palmas e confere o começo de mais uma sucessão de histórias fantásticas de gente teimosa que acredita em fazer o que quer. Eis a programação completa da devastação em Tocantins:

PROGRAMAÇÃO COMPLETA TENDENCIES 2011
8º TENDENCIES Rock Festival
Música, artes integradas e cultura renovada
Dias 5, 6, 7, 13 e 14 de Maio de 2011
Palmas – Tocantins – Brasil

Quinta dia 5

00:00 Blues Etílicos – São Paulo -SP
23:10 Three Bop Pills – Curitiba – PR
22:30 Veiétu – Palmas – TO
21:50 Riverbreeze – Goiânia- GO
21:10 Mr. Frog – Porto Nacional – TO
20:30 Poetas do Caos – Paraiso – TO

Sexta dia 6

00:40 Marcelo Nova – Bahia – BA
23:50 Hillbilly Rawhide – Curitiba – PR
23:10 Plastic Noir – Fortaleza – CE
22:30 Boddah Diciro – Palmas – TO
21:50 Girlie Hell – Goiânia- GO
21:10 Mastertins – Palmas – TO
20:30 Vício Vital – Palmas – TO

Sábado dia 7

00:40 Dr. Sin – São Paulo – SP
23:50 Diabatz – Curitiba – PR
23:10 Facada – Fortaleza – CE
22:30 Man Of Kin – Londres – UK
21:50 Corja – Goiânia – GO
21:10 Maquinários – Palmas – TO
20:30 Clamor – Araguaina – TO

Sexta dia 13

00:30 Wanderley Andrade – Belem – PA
23:50 Full Reggae – Terezina – PI
23:10 A Baba de Mumm-ra
22:30 Na Lata – Brasilia – DF
21:50 Asteróid 66 – Palmas – TO
21:10 Supernoise – Gurupí – TO
20:30 Jackdown – Palmas – TO

Sábado dia 14

00:30 Ação Direta – São Paulo – SP
23:50 Megahertz – Terezina – PI
23:10 La Cecília – Palmas – TO
22:30 Sociedade Oculta – Olinda – PE
21:50 Os Flutuantes – Porto Alegre – RS
21:10 Mata-burro – Palmas – TO
20:30 Thunder Rage – Palmas – TO

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Um Comentário

  1. @eduardoinimigo, sempre um grande texto! Parabéns cara!

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