Mas a solução errada pode te levar para o lugar errado.

No post anterior comentei que muitas vezes a solução pode estar dentro de casa. E reforço isso ainda mais, porque na busca por soluções algumas empresas se perdem e “encalham” com problemas maiores do que tinham antes de tentar resolvê-los.

E digo isso porque o mercado de consultoria, especialmente quando falamos de gestão e administração empresarial, é um mercado repleto de curiosos, aventureiros, charlatães e picaretas, verdadeiros bandidos que se aproveitam da necessidade e – porque não dizer? – do desespero de alguns empresários para se locupletarem. Isso sem falar na imensidade de modismos que esta área possui.

Outro dia conversava com Ronaldo Guedes, consultor em finanças estratégicas e parceiro da IDEA, e ele me apontou esse fato: a quantidade de modismos. Já vivemos épocas de deslumbramento com empowerment, com reengenharia (e Ronaldo me lembrou que o autor do livro base sobre reengenharia depois escreveu outro se desculpando pela lambança), com programas de qualidade, com ISOs, com montes de “S” e mais uma infinidade de soluções que podem ser eficazes para algumas empresas, mas certamente não são para todas as empresas.

Cada organização possui suas particularidades, portanto o rigor de um sistema de qualidade pode ser eficaz em um perfil de empresa, enquanto em outro já será mais útil um ambiente de criatividade extrema “tompeteriano”, enquanto em um terceiro qualquer palestra motivacional pode gerar resultados fantásticos.

Digo isso porque existe um preconceito grande no mercado com relação à palestras motivacionais. Concordo que uma hora de palestra não muda a vida de ninguém, ou ao menos não muda a vida da maioria das pessoas. Pode gerar uma marola, uma empolgação, mas daí a gerar uma revolução pessoal, isso vai depender de muitas variáveis além da simples palestra.

Já tive oportunidade de ouvir comentários elogiosos sobre alguma palestra minha, e algumas dessas oportunidades pessoas relataram que algo que eu disse ou fiz gerou uma mudança grande em suas vidas. Isso é fantástico, não tenha dúvida, mas não é a regra. Não é o padrão. Uma palestra motivacional tem seu papel e sua importância em um evento, em um momento  específico (como final de ano, por exemplo), mas não pode ser a ferramenta para arrancar a equipe de uma posição e levá-la a outra. Isso porque uma hora de palestra, por melhor que ela seja, é muito pouco. Não se tem tempo para criar um vínculo forte com a equipe, gerar confiança (indispensável nessa situação) e mobilizar as pessoas de uma forma genérica, ainda que específica em cada situação. Complicado, não?

O fato é que por causa de um mercado gigantesco, em excesso de demanda e com poucas exigências, muitos canastrões aparecem com soluções mágicas para as empresas. Repito, uma palestra provoca alguma mudança, mas um plano de treinamento alinhado com o planejamento estratégico e os valores da empresa geram revoluções e processos de revoluções.

Recebi um jornalzinho no sinaleiro (semáforo, para quem não for de Goiânia) outro dia desses. O nome do jornal já era empolgadinho, e não vou mencioná-lo aqui por uma questão ética. Sim, eu discordo veementemente do que o jornalzinho se propunha fazer, repudio o autor e assunto principal do jornalzinho, mas essas são minhas opiniões. Não posso simplesmente execrar o sujeito (um picareta, na minha opinião) porque não concordo com o que ele faz.

O tal jornaleco realmente é uma boa idéia de divulgação, levando imagens e idéias de uma forma atraente. Poderia ser melhor produzido, algumas falhas de digitação e erros de português, mas isso não tira o mérito da idéia. Porém o problema reside não na forma, mas no conteúdo. O jornalito é material de divulgação de um dito “consultor” que viaja pelo país levando suas palestras e se arvorando o mérito de mudar a vida das pessoas.

Como diriam os antigos “quem tem boca fala o que quer”, mas não precisamos ouvir qualquer baboseira surgida. A principal palestra que o jornalitcho divulga, o produto principal do sujeito, já mostra o tamanho do absurdo da proposta ali mostrada. O nome da palestra é “Curso de comunicação e palestrante: aprenda a falar em público e a influenciar pessoas”.

Até aí temos apenas um nome pomposo. Um curso de comunicação em público que ensine as pessoas a falar melhor em público é um produto interessante, muitas pessoas se interessam em fazê-lo. Quanto a isso o cidadão não incorre em nenhum absurdo, e nem quando mistura seu tema com o nome de um dos livros mais publicados da humanidade, de autoria de Dale Carnegie “Como fazer amigos e influenciar pessoas”.

Mas como se fosse pouco esse samba do afro-descendente com transtornos mentais, vejam o conteúdo da palestra do homem:

  • Motivação
  • Use a mente a seu favor
  • Perca o medo e a timidez
  • Monte um projeto de vida
  • Melhore e potencialize sua comunicação na empresa, faculdade ou família
  • Monte seu próprio negócio
  • Aumente as vendas
  • Telemarketing.

Então vejam, o curso não é bom, É FANTÁSTICO!! Ele ensina tudo que existe para se aprender. Impressionante, não? Mas a apresentação do curso continua com as maravilhas: “… aprendemos também a ter um melhor relacionamento conosco e com isso emagrecemos, vivemos mais, somos mais criativos e melhoramos nossas vidas em todos os aspectos”. Todos!! Emagrecer, viver mais, ser criativo, só faltou a promessa das 600 virgens nos esperando no paraíso, e todos iríamos nos imolar nesse curso divino.

Eu já estava enojado, ou melhor, impressionado com a coragem, mas o jornaleco trazia mais. Numa parte em que se apresentavam CD´s do sujeito para comercialização, um deles chamado “CD de relacionamento” promete “resolver todos os problemas de relacionamento”. TODOS! Leitores e amigos, em um CD todo o segredo da existência se encontra ao nosso alcance.

Em uma coluna do jornal (jornal?) a manchete convida “Quem é NONONONO? Conheça mais sobre ele” e discorre sobre esse enviado dos céus por cinco linhas, passando para uma apresentação de meia página sobre cursos, palestras, livros e CDs que o iluminado vende.

Por favor, soluções erradas são piores que nenhuma solução. Se você possui algum problema na sua empresa e não atua para corrigi-lo esse problema pode crescer e gerar mais prejuízos, mas contratar serviços inadequados certamente vão gerar problemas enormes e muitas vezes incorrigíveis.

Você é o capitão? Então cuidado a quem você pede orientação. O aventureiro sai do seu barco e vai tentar afundar o próximo, e você? Lembre-se que o capitão afunda com o navio.

 

Há braços!

 

Eduardo Mesquita

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