InFernet, a bacia das almas das boas intenções.

Usamos inFernet, eu escrevi isso aqui e se você está me lendo, nos encontramos no éter virtual. Sabemos da importância dessa forma de comunicação que usamos com tanta frequência. Aos que são meus contemporâneos, também podemos nos lembrar de quando – alguns anos passados – diziam que a inFernet iria afastar as pessoas, que os contatos seriam só virtuais e mais um monte de vaticínios que as Cassandras vituperavam. Enfim, se precisamos e usamos essa ferramenta, sabemos o tanto que ela pode ser mal utilizada e terminar por nos atrapalhar.

Estou falando da quantidade de mensagens inúteis que rodam pela web. Além das que são claramente viróticas, buscando roubar nossos segredos e sigilos, temos também as mentiras que se multiplicam ao sabor do vento, muitas vezes sabe Deus por que. Falando das que realmente buscam roubar informações e/ou contaminar nossas máquinas, devo reconhecer que ultimamente alguns bandidos estão ficando, ao menos, criativos. Recebi dia desses uma que dizia “PROPOSTA”, o que para um profissional liberal, micro-empresário como eu é pura poesia. Mas escolado por contaminações anteriores, parei para pensar cinco segundos e repassei mentalmente quantas propostas estavam em negociação naquele exato instante e tempo, quais eram as empresas com as quais conduzia negociações naquele período, com isso em mente fixei quais os domínios que poderiam surgir em minha caixa com aquele tipo de assunto. E já me preocupei porque não achei nenhuma combinação positiva. Além disso, a mensagem era por demais curta. Uma linha ou duas, sem nenhuma argumentação ou sequer cumprimentos e tratos educados. Costumo procurar clientes de forma criteriosa e uma das coisas que me chama a atenção sempre é a forma cuidadosa de lidar com clientes e parceiros. Novamente corri uma checagem e não encontrei em memória ninguém que pudesse ser tão miseravelmente objetivo que chegasse a ser grosseiro. E aí veio a senha final, a mensagem curtinha me mostrava um link para clicar. Não clico.

Quando recebo mensagem de alguém conhecido com linck para clicar, normalmente mando mensagem confirmando antes de qualquer iniciativa. Sou verdadeiramente paranoico, meu computador é parte importante da minha vida, por ter ali documentos, textos, ferramentas, coisas e mais coisas que me valem muito no cotidiano profissional. Além das coisas da banda, letras de músicas que ainda estamos compondo, contatos para shows com produtores do universo inteiro, fotos e mais fotos de shows que fizemos. Então tenho muito medo de clicar em links, mas tenho que admitir que o termo “Proposta” realmente me chamou a atenção e quase me induziu ao erro. Mensagens que falam de fotos de acidentes, vídeos eróticos de celebridades ou coisa parecida vão direto pra lixeira. Não gosto de ver acidentes e pornografia eu tenho a minha coleção.

Mas aí são mensagens criminosas, sabemos.

O duro é um negócio que já deveria ter virado história, mas que ainda encontra cúmplices voluntários, ou nem tanto. Estou falando das mensagens bobocas e mentirosas que as pessoas replicam aos milhões sem conferir se o troço é verdadeiro.

Recebi essa semana ainda um e-mail clássico. Fala de uma família com uma criança doente que vai receber dinheiro de algumas empresas se o e-mail circular a Via Láctea inteira várias vezes. Já me aborreço quando vejo esses troços, pelo tanto de ingenuidade de quem manda, mas tem coisa que beira a burrice. Primeiro é acreditar em alguma tecnologia – klingon, talvez – que possa rastrear e contar quantas vezes um e-mail percorreu a cobertura capilar de fibra ótica do planeta. Isso, até onde eu sei, é impossível. Mais ingênuo ainda por acreditar que corporações fariam isso sem fazer publicidade corporativa. Uma AOL iria dar dinheiro e não divulgar no seu site? E AOL no Brasil? Isso ainda existe?? Mas os que replicam a mensagem sequer se dão ao trabalho de ir ao site da empresa procurar alguma confirmação, saem mandando o troço para toooooooodos os contatos da lista achando que fazem o bem. Mas o pior não foi isso, as fotos que vinham falando do câncer cerebral da pequena criança traziam fotos de uma criança com queimaduras na bunda!! Na bunda! Parece piada, mas é sério. Lamento muito pelas queimaduras da pequenita criança, mas nunca vi câncer no cérebro queimar a bunda. Mas ao que parece os replicantes (perdoe-me Scott) dessa mensagem não se atentaram ao fato de câncer no cérebro ser… er… no cérebro. E não na bunda.

Outra mensagem dessa semana – foi uma semana rica, não é mesmo? – foi sobre um texto do Luiz Fernando Veríssimo falando do BBBB. Já começa suspeito porque duvido que Veríssimo fosse fazer um texto desancando uma atração popular, não por demagogia, mas porque Veríssimo é sagaz e percebe movimentos populares para comentar com inteligência e de forma mordaz, quase cínica as vezes. Veríssimo é refinado, elegante, até quando debocha. E o texto fala mal do programa, fala mal de quem vê a droga do programa, fala mal das empresas que vendem e patrocinam o programa, fala mal de tudo. É um texto bem ranzinza mesmo, falando dos pobres funcionários que deveriam ser os verdadeiros “heróis” para o Pedro Bial, falando das criancinhas, do vento norte e mais um punhado de idiotices que não me preocupei em memorizar. Mesmo. Além disso, o texto é ruim pra diabo. No dia que o Luiz Fernando Veríssimo, dileto filho do enorme e mágico Érico Veríssimo, escrever um texto tão desgraçadamente ruim como aquele, precisa parar de escrever. Ele nem se quisesse poderia produzir um troço tão ruim. Ruim, ruim, ruim e mal escrito. Mas como ataca a Globo, como defende uma mítica superioridade intelectual de quem não vê o programa e como é fácil pra burro mandar a mensagem, a bobajada vem circulando no país inteiro numa velocidade que só coisa ruim consegue alcançar. A mensagem apatetada apela ainda para uma certa falta de cultura de quem vê o programa e critica muito o país que alimenta um programa desses.

Curioso é ver que quem critica a falta de cultura nem sequer deve se lembrar da última vez que leu um livro de poesia, foi a um teatro assistir a uma peça ou a apresentação de algum coral, ou qualquer coisa que tenha o rótulo de cultura. Não foi a um show de rock independente ou a uma convenção de mangá. Nada! A maioria desses que criticam a falta de cultura dos telespectadores do BBBBB não tem muito mais cultura que um pé de tomate. Mas é fácil se jactar de sabido apontando o dedo para os outros.

Além disso, o programa é ruim pra diabo mesmo. Mais ainda, é um desserviço social, cultural, educacional e muitas vezes até sexual, por banalizar questões que deveriam ser levadas com mais cuidado. O texto fala isso, mas é tão ruim e preconceituoso que tudo de bom que existe nele – e existe – se perde. Fica falso ou barato.

Pra piorar tem gente que vai no embalo e acaba alimentando o baixio das bestas. Não é que dia desses tive contato com um blog de um sujeito em que lá estava o tal texto citado como sendo do Veríssimo. Estava com tempo, tuitando, e dei um toque na pessoa que me apresentou o caminho, figura que trabalha com jornalismo, agitadora cultural e marqueteira de maquiagens psicodélicas, a doce Mary Camata, lá de Rondônia. Avisei que o texto era apócrifo, que ela avisasse o dono do blog porque pegava mal um texto daqueles e tals. Qual não é minha surpresa quando o próprio dono do blog aparece no meu timeline me atacando com oito ou nove pedaços secos de esterco e arrotando um monte de impropérios. A Camata até tentou me defender, mas quando a briga é boa melhor não ter juiz. O sujeito dizia que eu falava aquilo porque devia ver o programa, porque devia ser um cabeça de vento que torcia pelo MauMau ou pela(o) Ariadna e coisas parecidas. Mas me xingou mesmo. Repliquei que só tinha dado o toque porque publicar um texto citando um autor inocente pelo crime era uma atitude leviana. Ele ainda quis teimar e disse que não se importava com a fonte ou com o autor porque ele concordava com o texto. Peralá, pode-se concordar com qualquer coisa, menos com canalhice. O texto pode dizer muitas coisas que são consumidas e concordadas por vários, mas daí a dizer que não se importa se o autor for aquele ou não, aí já é prima-irmão da covardia intelectual, vizinha da canalhice. Gente canalha acha que os fins justificam os meios, sempre.  Ainda teimei mais meia hora com o quadrúpede, vendo minha amiga nortista horrorizada com as batatadas que o cara falava, mas aí deu pra mim, me despedi de Mary e deixei o sujeito espumando os cantos da boca na web. O texto ainda deve estar no blog dele. Qual o blog? E eu decorei ? E não vou detonar meus leitores mandando prum canto bagunçado desses.

Então atenção, o tal do “Que vergonha Bial” ou coisa parecida não é da lavra gaúcha da família de Clarissa. O que me faz lembrar outra que vive sendo citada como autora das maiores abobrinhas do universo: Clarisse Lispector. Uma mulher que foi quase amarga, cinza, enorme nas letras, mas com uma visão de mundo bem peculiar, e que vira e mexe aparece no twitter ou outras redes falando as maiores platitudes do mundo. Deve estar dando voltas no túmulo. Ah, e o Jabor também não escreveu nem metade do lhe atribuem, mas esse se diverte com a palhaçada.

A última me aconteceu hoje. Uma mensagem apelativa e dramática falando do site www.cancerdemama.com.br. Dizia que havia um quadradinho rosa no site para ser clicado e que era a única forma de manter o site no ar, porque ele corre o sério risco de sair do ar se não tiver não sei quanto s cliques por lá e tals. Câncer de mama é um assunto sério na minha vida, duas das maiores mulheres da minha vida já tiveram contato com essa doença, e uma delas – minha mãe – faleceu por causa disso.  Me interessei em ajudar. Fui ao site e lá estava o quadrado rosa. Mas logo abaixo um outro link apontava para um esclarecimento. Fiquei curioso e fui ler. O próprio site desmentia a tal mensagem.

Veja bem, o site explicava que a tal mensagem era mentira, um hoax, inventado talvez com boa intenção, mas que exagerava nas cores e que o site não corria o risco de sair do ar. Sim, o site pode se beneficiar muito com seus cliques – o link está aí, vá até lá agora e clique no quadrado rosa – mas não existe risco de sair do ar ou coisa parecida. É exagero.

Alguém pode pensar que essas mensagens não produzem dano ou não fazem mal. Ledo engano. Mensagens assim servem para disseminar e divulgar um monte de e-mails válidos pela rede. Sabe qual o risco disso? Já viu o tanto de mensagens que vão direto para o lixo? Aonde você pensa que eles arrumam seu e-mail? As pessoas divulgam os e-mails válidos e isso é um doce para hackers e crackers que vão infestando a web de pirâmides financeiras, propagandas de máquinas de aumento peniano e sites fantasmas de bancos. Quem divulga essas mensagens indiscriminadamente ajuda os bandidos.

No caso desse site do câncer de mama eu aposto que muita gente replicou a mensagem e não foi lá clicar no tal quadrado rosa. De certo achando que isso já era suficiente. Assim como muitos replicaram uma mensagem – logo ela volta a circular – falando de um hospital em Sorocaba que estava jogando córneas no lixo por não terem receptadores (ou receptores?) para as córneas. O e-mail ainda vinha com o telefone do hospital. Fiquei curioso e liguei. A pessoa que me atendeu disse que aquela linha era exclusiva para dar explicações sobre o tal e-mail, porque era tão grande a quantidade de gente indignada que ligava lá ou então querendo as tais córneas que eles precisaram designar uma linha específica e uma pessoa para ficar explicando. Sabe o pior? O hospital sequer trabalhava com transplantes.

Apagar o ursinho cinza do computador, agulhas envenenadas nos bancos de cinema, desodorantes anti-perspirantes que causam câncer, ladrões de rim que deixam a vítima numa banheira, aldeias na China que jogam meninas recém-nascidas no esgoto, SonyEricsson dando laptops de presente, Bill Gates dando celulares de presente, tudo mentira. Procure se informar, cheque os sites das empresas mencionadas, não replique sem saber o que você está fazendo.

Sabe por que as pessoas replicam essas mensagens? Culpa e preguiça. Essas mensagens dramáticas, apelativas batem direto na cara de quem não faz nada pelo próximo, mesmo. Não faz e acha que deve fazer. Entenda que existem pessoas, milhões delas, que não fazem nada pelo próximo, nem querem saber quem é o próximo, estão se lixando para o próximo, e vivem muito bem com isso. E são pessoas decentes e até mesmo éticas. Ajudar aos outros não é salvaguarda para o paraíso, mas ainda existem os que acham que deveriam fazer mais. E não fazem. Aí surge uma mensagem como essas e o sujeito pensa “Putz, posso ajudar e ainda ficar bem visto pela galera dos meus contatos!” e aí entra a preguiça. Ao invés de checar a informação, ele apenas clica em “Encaminhar” e solta a porcaria pro lado do vento. Quer fazer alguma coisa de útil pro mundo? As causas são bilhões, todo dia alguém tenta me mandar um link pelo Facebook falando de alguma causa que não me interessa. Escolha uma e se dedique. Por incrível que pareça, existem as causas que você pode se envolver clicando preguiçosamente mesmo, mas confira antes se a coisa é real.

Acreditar em algo lido na inFernet é tão fácil quanto acreditar em algo lido num muro da cidade. Crie vergonha na cara e não bagunce mais a rede. Suas boas intenções podem ser bem aplicadas, mas depende de você assumir a responsabilidade por isso.

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Há braços!

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Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei

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twitter – @eduardoinimigo

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