Divisão S.O.M.B.R.A. – a primeira missão.

Iniciei minhas atividades de treinamento outdoor com a parceria entre IDEA (www.ideiadiferente.com) e AGREGAR (www.agregarrh.com.br) perto de seis ou sete anos atrás. Parceria essa que encorpou ainda mais com a Casa de Walker (www.casadowalker.com.br). Achei sensacional, a experiência de estar em ambiente natural, vivenciando desafios e acompanhando grupos que seriam levados ao seu limite, proporcionando às pessoas experiências únicas e inesquecíveis. Foram inúmeras equipes nessa atividade, momentos marcantes que tive e que me deixavam cada vez mais empolgado com a ferramenta (treinamento outdoor) e com a situação de estar no meio do mato em atividades tão diferentes do meu cotidiano. Na foto um momento do treinamento realizado com os profissionais do Sicoob Engecred, momento inesquecível, a propósito.

Sim, é isso mesmo. Porque sempre fui muito urbano, apreciador do conforto da civilização e das facilidades da tecnologia. Porém o treinamento outdoor já iniciou um movimento de transformação bem sugestivo. Ao invés de realizar treinamentos e palestras em salas com ar condicionado e pessoas cheirosas e sentadinhas, experimentar realizar a mesma atividade de treinamento e capacitação profissional em meio a mato, cachoeiras, rios e corredeiras. Foi uma descoberta.

Mas em pouco tempo comecei a achar que o treinamento outdoor estava atendendo somente às minhas necessidades profissionais, quanto às pessoais algo já começava a faltar. Isso porque no treinamento outdoor eu controlo as variáveis o máximo possível, sei do caminho, programo tudo que vai acontecer e o desafio fica reservado aos demais participantes. Comecei a ler, pesquisar e tentar descobrir o que fazer para atingir esse próximo grau de satisfação que a experiência em ambiente natural vinha me proporcionando.

Foi justamente nesse momento de inquietação que em uma conversa despretensiosa com meu cunhado, Luiz Botosso Júnior, uma ideia surgiu. Ele foi militar, sempre foi escoteiro, então tem experiência e vivência em atividades na natureza. Ele mal sabia o que eu vinha pensando e buscando, porque sempre havia me visto como o urbanoide esparramado na rede ou entalado nos teclados de computador do meu cotidiano. Pois nessa prosa algo começou a se desenhar.

Alguns dias depois ele me manda um e-mail anunciando o que viria pela frente. O que queríamos fazer se chamava “bushcraft” e poderia ser traduzido de forma muito direta e rudimentar como “artes do mato” ou ainda “artes mateiras”. Envolve uma gama de atividades e técnicas e capacidades de sobrevivência, adaptação e ação sobre o meio ambiente, sobre o ambiente natural. Tudo baseado em técnicas que já fizeram parte do cotidiano normal das pessoas, mas que vem sendo gradativamente deixado de lado com o avanço da tecnologia e da aceleração de nossas vidas.

Nos últimos tempos a Tv vem proporcionando algum contato com esse tipo de situação em programas como “À prova de tudo” e “Survivorman” que são transmitidos na Tv a cabo.

Pois foi ali que eu entendi: sim, é isso que eu quero.

Foram alguns meses de preparação, porque nesse meio tempo eu morri e voltei, precisei ficar de molho alguns meses para me recuperar adequadamente e para voltar a realizar atividades físicas mais intensas. E nesse tempo muita discussão, pesquisa e preparo.

Em nossas prosas agora bem animadas, eu e Júnior fomos criando um conceito. Pois a coisa se mostrava como uma grande aventura realmente, e pela clareza que tenho de que não envelhecemos nunca, mas simplesmente mudamos os brinquedos, montamos um grupo e definimos esse conceito.

Criamos a Divisão S.O.M.B.R.A. (Sobrevivência, Objetivos Mateiros, Busca de Recursos & Adestramento), com regras, normas, slogan e convite oficial aos escolhidos.

Aos olhos não treinados, não existimos.

Nossos propósitos são simples e objetivos. Nossas missões são inúmeras.

Não nos verão chegar, não perceberão quando sairmos.

Somos poucos, não chamamos atenção.

Marchamos em silêncio, não deixamos rastros ou marcas.

As matas são nosso local, os desafios e aventuras nossa razão de existir.

Nós existimos sob o sol, na noite nos misturamos.

Nós somos a Divisão S.O.M.B.R.A. (Sobrevivência, Objetivos Mateiros, Busca de Recursos & Adestramento).

Era chegada a hora de organizar nossa primeira expedição. Por motivos vários, os outros convidados a integrar a S.O.M.B.R.A. não poderiam nos acompanhar na primeira expedição, e então seríamos apenas eu e Júnior, doravante chamados Inimigo e Coyote, nossas alcunhas de selva.

Definimos que iríamos realizar nossa primeira expedição no dia 19 de novembro. Além dessa novidade eu atravessava uma mudança de endereço, com caixas de papelão, coisas quebradas e stress associados. Não seria fácil, mas assim se começa uma aventura. De agora em diante a narrativa já não será mais feita por mim, Eduardo Mesquita, mas sim pelo Guerreiro S.O.M.B.R.A., O Inimigo.

A jornada se iniciaria após o almoço de sábado. Na noite anterior preparei meu equipo. Esparramados sobre o sofá de casa, e grande parte do chão da sala, vislumbrei tudo que havia juntado até aquele momento para me preparar para a missão. Naturalmente muita coisa ali seria desnecessária, mas o processo de montagem do equipo demorou semanas, então ninguém poderia me culpar pelo exagero. Claro que a caixa de pé de moleque teria que ser deixada de lado.

Enquanto separava todo o material em kits (sobrevivência, primeiros socorros, fogo, alimentação) e acondicionava em embalagens plásticas e impermeáveis, percebi que realmente na noite seguinte eu estaria dormindo no meio do mato. Mesmo sendo essa uma missão da Divisão S.O.M.B.R.A. de nível 01 (o nível introdutório, sendo que no nível 05 são vários dias e pouquíssimos recursos. Mas isso é assunto para os DO-I – documentos internos), eu estava ciente da única regra absoluta em todos os níveis de missão: proibido o uso de barracas. Sim, iríamos dormir em redes, no meio do mato. Confesso que tremi nessa hora. A ideia de estar em uma rede exposto a qualquer situação e risco de uma mata era tudo que eu havia procurado, e tudo que agora me deixava com as pernas num momento de menor firmeza. Bambas, para ser sincero.

Respirei fundo e continuei a arrumar meu equipo. Não havia tempo para vacilações, e sendo um S.O.M.B.R.A. eu estaria pronto quando chegasse a hora. Material organizado, tudo pronto para sair, fui dormir. Precisava estar descansado para o dia seguinte.

A manhã correu entre compromissos e preparativos, e quando chegou a hora de sairmos em missão, me aprontei e percebi que se havia alguma imagem ideal de um sujeito pronto para – quase – tudo, ali estava a imagem no espelho na minha frente. Eu estava preparado para uma guerra. E a guerra se travaria entre meus limites e minha curiosidade.

Coyote havia sugerido dois lugares para nossa primeira missão, e lamentavelmente a primeira opção ficou inviabilizada pela irresponsabilidade de uma empresa e pela inoperância governamental. Um curtume jogando dejetos em um rio, poluindo todo um bioma, e nenhuma entidade de fiscalização fazendo o que deveria. Teríamos que ir para nossa segunda opção, um pouco mais longe. Paramos perto do Rio Anicunzinho (também curiosamente chamado Anicuns Grande) e nos metemos no mato, em busca do local para montar nosso acampamento. E essa primeira incursão já foi uma prova de fogo. Mato fechado, espinhos, mochila prendendo em ramos, facão na mão e o sangue já escorria no meu antebraço. Um corte longo e eu já dava o sangue pela missão. O primeiro ferimento de batalha, afinal de contas não quero morrer sem nenhuma cicatriz (palavras de Tyler Durden).

Achamos um caminho melhor e lá fomos nós. O sol inclemente deveria ter cobrado um preço mais alto das minhas escolhas, porque Coyote tem seu equipamento praticamente todo militar, verde. O meu equipo é todo preto. Charmoso, admito, mas debaixo do sol poderia ter virado uma armadilha. Aguentei bem. Caminhamos muito e achamos um local para nosso acampamento base, algo perto de 600 a 800 metros para dentro da mata, saindo da estrada. Realmente não era muito longe, ainda ouvíamos os caminhões na estrada, mas era suficiente para uma primeira incursão.

Montamos nosso bivaque, instalamos nossas redes, penduramos nossas mochilas e eu já começava a ter minhas lições mateiras, aprendendo alguns truques simples e eficazes, aprendendo alguns nós que me ajudariam muito e logo saímos para catar lenha para o fogo que precisaríamos. Foi mais fácil do que pensei, mesmo tendo um longo embate com um toco mais robusto, que exigiu muito do meu velho facão. Logo o fogo estava aceso e começávamos a preparar nossa janta.

Fiz o meu espeto enquanto Coyote conduzia um arroz na fogueira. Comemos um digno e surpreendentemente delicioso arroz com linguiças assadas no espeto. Uma refeição de um general, e descobri refastelado que come-se bem no mato.

Logo após descobrimos um ponto no rio, logo abaixo nosso acampamento, que nos serviria para pesca. Eu não entendo nada de pesca – assim como outras coisas – mas Coyote havia levando uma pequena varinha de pesca e ali ficamos por algum bom tempo, curtindo o visual e escutando o barulho delicioso do rio correndo entre as pedras. Até ali eu já tinha tido muito para estar satisfeito, mas mal sabia eu que nada havia acontecido ainda.

A noite cai rápido no mato. O barulho no céu anuncia chuva, e ficamos no acampamento saboreando uma deliciosa cachacinha e batendo um papo bom. Quando então um momento mágico, que somente no meio do mato pode-se apreciar. Uma nuvem de vagalumes, com suas luzinhas verdes, surge sobre nosso acampamento. Me senti bem vindo a Pandora naquele momento, tudo lindo, a fogueira, os vagalumes, o cheiro de chuva e a noite se revelava mágica em leds verdes.

Fomos pescar, degustar um charuto (quisera fosse um bom charuto, mas o Titã seria suficiente para uma noite) e mais alguns goles de genuína e generosa cachaça. Coyote volta ao acampamento para buscar iscas e vive mais um momento inesquecível da jornada: dá de cara  com uma capivara com grandes olhos assustados, embaixo da sua rede. Ele havia ouvido o tropel de algumas antes, mas não havia visto, mas ao chegar ao acampamento, lá estava uma delas, debaixo da rede, olhando para ele. Duas criaturas assustadas na noite. Um encontro.

Não pescamos nada, mas a prosa se estendeu por horas na beira do rio. Já viveu isso, pequeno gafanhoto? Uma prosa boa, cachaça honesta, charutos e o rugido do rio aos seus pés? Não? Não sabes o que estás perdendo.

Voltamos ao acampamento base para tentar encontrar um local de águas mais tranquilas para tentar a sorte com os anzóis. Um barranco perto da base mostrou-se ideal. E naquela noite tranquila, Coyote falava e contava histórias e eu já começava a ressonar, sonhando até, me preocupando em não dormir e desabar daquele barranco. Encerramos a pesca e resolvemos ir dormir, e quando comecei a arrumar minha rede ouvimos um arrastar forte nas folhas ao nosso redor.

Ligamos as lanternas, meu coração ultrapassou as escalas de velocidade e força. Ficou ainda mais forte e rápido quando percebemos que o que quer que fosse, não havia se afastado quando ligamos nossas lanternas. Fosse o que fosse era muito corajoso, violento ou sem noção. O bicho não havia se assustado, eu estava assustado para mais um ano de pavor. O barulho aumentava, o bicho vinha em nossa direção. Foram segundos – sim, segundos – de intensa expectativa e o barulho aumentava e se aproximava. Eu mal respirava nessa hora e só conseguia pensar em meus alunos, clientes e colegas de banda que eu jamais veria novamente (hehehe). O barulho aumentava e finalmente vislumbrei aquele par de olhos flamejantes e aquela expressão de fúria. Sua cabeça era do tamanho de um frigobar e seu corpo do tamanho de um Fiat 147, escamas do tamanho de bandejas e ali estava ele olhando em meus olhos: o poderoso Tatu Dragão!!

Tá, tudo bem, não era assim tão grande, mas lembre-se do medo que eu estava passando. Era um tatu bem grandinho, um tatuzão mesmo. Do tamanho de um cachorro grande, tipo um enorme Shitzu bravo. Olha, pode parecer exagero, mas aquela hora da noite, quase madrugada, no meio do mato, naquela barulheira toda, ele podia pesar meio quilo que para mim ainda ia parecer o temível e assombroso Tatu Dragão!!!

Entramos em frenética perseguição, mas era uma espécie de Tatu Vietcongue, profundo conhecedor do terreno e dos intestinos do terreno. O bicho desapareceu completamente.

Como dormir depois desse susto? Muito fácil, só estar detonado de cansado como eu estava. Vesti minha balaclava – para não entrar inseto na boca ou na orelha – e dormi o sono dos justos e inocentes. Aquela rede era uma cama do Blue Tree naquele momento, acreditem.

Acordei bem cedo, o dia começava a romper, a rede começava a esfriar e eu vi o dia clarear de forma magnífica. Um café da manhã digna de nobres, com café de fogueira (feito com água de vagalumes), pão, castanhas variadas e smoked water (água enfumaçada, no nosso dialeto, um gosto de fumaça de lascar).

Saímos para explorar o local, e eu tinha uma missão: encontrar o meu cajado para trilhas. Entramos na mata e descobrimos encantados uma enorme família de macacos nas árvores, eles assustados, nós de queixo caído. Uma, duas, centenas e milhares de árvores gigantescas, a umidade elevadíssima, a mata fechada e nessa parte da jornada descobrimos locais sensacionais para uma segunda missão. Para novas bases, e nesse momento nosso “apartamento” ficou sem graça, porque vimos locais muito mais legais para montar nosso acampamento base, locais ótimos para pescar e locais para ficar de bobeira.

Voltamos para a base, pegamos a vara de pesca e iscas e tiramos algumas boas horas pescando na curva do rio, numa pedra especialmente desenhada para nosso conforto. Ali estavam os SOMBRAS e a água fresca, curtindo o ventinho do meio dia. Retornamos à base, fizemos nosso almoço com um arroz e linguiças defumadas e nos preparamos para retornar para a civilização.

Desmontamos tudo, montamos nossas mochilas, apagamos cuidadosamente a fogueira (acabando com qualquer possibilidade de brasa, fagulha ou faísca), apagamos todos os nossos traços e nos dirigimos ao nosso carro. A volta foi recheada de comentários, risadas e novos planos.

Para completar o fim de semana inesquecível, ao chegar em casa pude curtir um maravilhoso momento na piscina com meus tubarões e Minha Delícia. Logo depois as devidas arrumações do equipo e o início da parte mais chata e desagradável da missão: catar os carrapatos no corpo. Eu achei oito em mim, Coyote descobriu 27 nele.

A primeira missão da Divisão S.O.M.B.R.A. foi sensacional. Infelizmente não consegui cumprir a minha missão de encontrar meu cajado para trilha, mas graças a uma dica do Coyote, penso que isso esteja perto de ser resolvido. O BOPE diz que “missão dada é missão cumprida”, nós também acreditamos nisso, mas em algumas situações, nossas missões não são cumpridas, mas são compridas.

Essa foi só a primeira, muitas ainda virão. D2, Dente de Sabre e Claudinho se preparem, nós existimos sob o sol, na noite nos misturamos.

Sou Sombra.

Selva!

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