Relações, com o que realmente devíamos nos preocupar

Sou psicólogo, e optei por trabalhar com a área organizacional, o que significa uma opção por trabalhar com empresas e com recursos humanos. Não senti afinidade por nenhuma outra área, sempre tendo achado a área clínica – de psicoterapia, propriamente dita – possuidora de um ritmo muito lento para minha ansiedade poder suportar. E até experimentei ser psicólogo clínico, mas realmente eu gostava da agitação empresarial da área de recursos humanos, os prazos, a correria, a pressão, a competição por melhores resultados; além do ambiente das empresas que me era muito fascinante.

Digo tudo isso para abordar dois estereótipos que persistem em sobreviver apesar da passagem do tempo e do esclarecimento das pessoas. O primeiro estereótipo – no qual não vou me alongar – diz respeito ao psicoterapeuta, ao psicólogo clínico, e à imaginária varinha de condão que muitos acreditam esse profissional possuir. É normal e comum, em conversa com uma pessoa psicóloga, o indivíduo sentir-se atemorizado, amedrontado, preocupado, porque a criatura psicóloga vai descobrir todos os seus segredos e vai entendê-lo imediatamente nas primeiras frases. Isso é um rematado absurdo, até porque ninguém vive sua profissão por vinte quatro horas ininterruptas; e mesmo que assim o fizesse é um exagero quase infantil crer que o diploma de psicologia nos dá poderes sobrenaturais ou paranormais. Não nos tornamos bruxos com o diploma de psicólogos, mas nos tornamos apenas psicólogos, profissionais possuidores de técnicas baseadas nas prévias aptidões humanas que se valem de sensibilidade e de cuidado, mas isso e ponto.

O outro estereótipo persistente é o de que psicólogos de recursos humanos existem nas empresas para cuidar das pessoas. Cotidianamente somos até mesmo cobrados a respeito desse papel, de “cuidadores de gente”, quando na verdade nossa responsabilidade passa um pouco ao largo disso. Psicólogos organizacionais não devem se preocupar com gente, mas antes e primordialmente com as relações.

Pode parecer que estamos trocando seis por meia dúzia, mas na verdade são duas situações muito diferentes. A preocupação com a pessoa deveria permear também a preocupação com a vida particular, com as opções pessoais e íntimas da pessoa; e por mais que a empresa desenvolva atividades que visem melhorar aspectos da vida particular do profissional, como atividades sociais e ações voltadas para a família; ainda assim a vida particular permanecerá assim: particular. É temerário crer, na minha visão, que a empresa deva interferir de forma significativa na vida pessoal, até pela absoluta falta de tempo existente hoje nas organizações.

Mas ao nos preocuparmos com as relações existentes na empresa, aí sim podemos fazer funcionar uma interferência com potencial de expansão positiva exponencial. Digo isso porque se a empresa se preocupa com as relações dos profissionais entre si, dos profissionais com a empresa (a marca, cabe acrescentar), dos profissionais com clientes e mercado em geral; aí sim podemos influir na vida particular e pessoal. Mas sem a pretensão de que isso se realize por propósito, mas sim por conseqüência.

Um profissional que se relacione bem com seus colegas e com sua atividade possui melhores condições de se dedicar a uma família ou a amigos ou mesmo a atividades políticas ou religiosas. Isso porque o ambiente onde ele passa a maior parte do tempo é um ambiente saudável, produtivo e positivo. E posso imaginar que alguns leitores estão a se indagar qual o propósito de se orientar o foco para as relações; e tenho certeza que minha resposta poderá chocar alguns puristas: Produção!

Empresas existem para ter lucro, e isso é uma coisa óbvia ao extremo, portanto todas as iniciativas de uma empresa – entidade incorpórea e existente apenas pela vontade de um mercado de consumo – para com sua equipe visam melhorar as condições de produtividade. Se me preocupo com as relações durante esse processo produtivo, posso traduzir essa preocupação com a frase honesta: “Não me preocupo com a vida de vocês lá fora, mas aqui dentro nós vamos funcionar bem!”.

Pragmático demais? Pode ser, mas ainda assim as preocupações com as relações dentro das empresas deveriam ser a principal preocupação dos que tem a responsabilidade de gerenciar gente. Sim, isso mesmo, não só os psicólogos, mas todos aqueles que gerenciam pessoas, deveriam ter o foco orientado para as relações de suas equipes, e por isso esse texto. Não se trata apenas de uma responsabilidade dos RH´s, mas sim de todos aqueles que precisam motivar suas equipes e conseguir seus resultados através das mesmas.

Depois de nossas equipes integradas PROFISSIONALMENTE, depois de nossos resultados alcançados com as pessoas trabalhando de forma satisfeita, depois de termos conseguido gerar um ambiente profissional e produtivo; aí então vamos nos preocupar com as pessoas; e aí descobriremos que essa preocupação será em vão.

Tendo cuidado das relações, as pessoas estarão também cuidadas.

E você; tem cuidado das relações na sua empresa? Se as coisas continuam como sempre foram…

(r)evolucione!!