Cala a boca, Nascimento!

Cala a boca, Nascimento!

Talvez a essa altura dos fatos você já tenha visto o vídeo de Carlos Nascimento, âncora de telejornalismo do SBT, em que ele aborda os assuntos mais comentados do momento no país. Se não viu, veja: http://www.youtube.com/watch?v=j_CUqLslASQ.

Honestamente? Nascimento, com uma carreira extensa no jornalismo, já teve momentos mais brilhantes. Ele perdeu uma chance linda de ficar calado. O fato do país estar comentando o “estupro que não foi” (parecendo a Viúva Porcina, a “que foi sem nunca ter sido” – para manter o assunto na Tv) e o meme da garota nordestina em viagem (já encerrada) à América do Norte não é sintoma da nossa “pouca inteligência”, como diz o âncora. Mostra antes que continuamos um país bem humorado, nesse caso; e um país sem costume pela cultura, naquele.

A discussão do BBBB realmente é boboca, já que o que se discute é o estupro que os envolvidos negam ter acontecido, ou seja, nem sequer quem deveria ter sofrido com o ato indefensável está sofrendo. Então para que perder tempo com isso? Porque as pessoas realmente não estão interessadas em discutir Machado de Assis ou ouvir João Gilberto. Porque as pessoas não estão com disposição para debater o que vai no senado federal, e isso realmente mostra o tanto que estamos num momento ruim no país. Não menos inteligente, mas pelo menos muito pouco interessado. Nunca fomos um povo engajado, sejamos francos. Somos o povo que torcia pela seleção e que comprava Fusca financiado enquanto dois grupos brigavam no país para ver quem impunha sua ditadura e sua ideologia. Mortes aconteciam de ambos os lados, e lá estávamos nós urrando pelo “Escrete Canarinho”. E volte no tempo o quanto quiser, e não se encontrará exemplo de movimentação tão ampla assim que nos enalteça enquanto “povo”, “raça” ou o que quer que seja. Nesse caso então Nascimento foi tolo por julgar que já fomos, enquanto bando, melhores que isso. Nunca fomos. Sempre nos interessamos mais pela calcinha ausente da moça ao lado do presidente do que pela quebra da liturgia do cargo. Sempre nos interessamos mais pela cachaça ingerida pelo presidente do que pelas estruturas de dominação que se construíam. Sempre nos interessamos mais se o sujeito mandatário da nação era realmente ateu do que pelas negociatas que corriam subterrâneas buscando aprovações e comercializações.

Não, Nascimento, no caso do BBBB, infelizmente nós nunca fomos melhores que isso. Somos um povo “bunda”. Somos um povo acostumado a fazer piada com desgraça, porque não conseguimos sequer enfrentar nossa dor e nosso luto. Nos envergonha, enquanto nação, ter que sentir algo que não seja risível ou lúdico. Somos crianças ou no máximo pré-adolescentes.  E achamos o máximo quando alguém ataca algum fenômeno popularesco porque nos irmanando com esse atacante, nos vingamos do atacado e nos sentimos melhores, intelectualizados, sábios.

Quer saber? Falar mal do BBBB é tão chato quanto assistir e comentar o programa. Talvez seja até mais chato ainda porque é muito falso em sua grande maioria. Esse tanto de gente criticando quem assiste ao programa se desdobra suarento em funks pancadões e comentários de bebedouro sobre a vida sexual do gerente e da secretária. Esse tanto de gente que finge achar “baixaria” o programa voyeur é o mesmo tanto que não abriu sequer um livro no último ano, que não assistiu a uma peça de teatro e que quando escreve o que pensa, escreve com erros de português, acentuação ou concordância. Como diria Pessoa, “ó príncipes, meus irmãos!”. Acompanhando o Facebook ou o Twitter temos a sensação de ser um país de príncipes, nobres consumidores de filosofia existencialista, discutindo Nietzsche enquanto degustam um saboroso e tépido chá de camomila.

Somos um país de noveleiros, torcedores de futebol, bebedores de cachaça e dançadores de Teló ou MC QualquerCoisa. Se a maioria define uma raça, eis o que somos. Então eu pergunto, quando fomos mais inteligente, Nascimento? Sendo assim, cala a boca, Nascimento!

E no caso da Luiza, de novo Nascimento perdeu chance de ouro de ficar quieto. Sim, o meme se tornou viral e isso mostra o tanto que a web é poderosa. E mostra ainda o tanto que a Tv está arcaica, ultrapassada e perdida sem saber acompanhar. Um âncora de telejornal (o formato mais antigo da comunicação atualmente, salvo pequeno engano) se arvorar na arrogância de reclamar de um meme internético me soa como um velho gagá reclamando do bisneto ouvindo música alta. Em ambos os casos é ridículo, por não perceber a distância das posições.

O meme da “menos a Luiza, que está no Canadá” é fenomenal. Além de divertido, engraçado e completamente non-sense para quem não sabe a origem do termo. E até para quem sabe a origem. Só comentando brevemente, tudo começou num comercial de imóveis no nordeste (não vou descer a detalhes de nomes e cidades, procure na rede quem quer saber) em que um figurão político decadente e patético junta a família no fim do comercial para dizer que todos gostaram do imóvel, e com uma cara entre imbecil e atarantado-mal-dirigido abraça uma foto da inocente Luiza e comete o bordão: “Menos a Luiza, que está no Canadá”. Os conterrâneos do coronel político acharam aquilo tão idiota que começaram a desancar a situação repetindo esse bordão com tom cada vez mais cáustico e cínico. Pegou! Caiu na web, virou meme e viralizou.

E aí então o país não pode estar se prendendo a essa discussão, segundo o velho jornalista, porque é bobo? E veja bem, não é o país. É o país que tem algum acesso, ainda que indireto, com a internet. A grande maioria do país nunca ouviu falar disso. Mas para Nascimento, a voz de uma rede de Tv tão moderna e avançada como o SBT, isso é o fim da picada.

Fim da picada, Nascimento, é a falta de humor para uma piada bobinha. Fim da picada, Nascimento, é um merda como você que nunca fez nada para contribuir com algum grau de consciência popular vir agora reclamar dessa manifestação adolescida. Ou em seus anos de Rede Globo você foi assim tão participativo e questionador? Eu nunca vi. Nunca questionou a Globo, nunca questionou os governos militares, nunca questionou nenhum presidente (seja correndo risco de impeachment ou gerenciando mensalão), nunca reclamou sequer de alguma celebridade que cometesse alguma gafe, feiúra ou indiscrição. E lá vem esse senhor reclamar de um piada que o povo está disseminando? Ele vem reclamar do povão?

A origem do bordão memético mostra até uma rebeldia dos nordestinos contra um coronel ultrapassado e sem noção de ridículo. Querendo arvorar alguma nobreza ele expôs a filha que curtia temporada pra lá muito pra lá do Equador. Querendo aparecer ele se tornou o motivador de um enxovalho nacional inesquecível. E se a origem é essa, melhor ainda é a piada. Porque se ao dizer que todo mundo está falando isso, “menos a Luiza, que está no Canadá” eu estou contribuindo para repassar a imagem idiota do coronel político, então eu estou agindo de forma política, coerente e irônica.

Talvez Nascimento queira o povo rindo de “Zorra Total” e “A praça é nossa”, que são grandes expoentes do humor natural, autêntico e puro. Talvez Nascimento queira montar um comitê para determinar o que é engraçado e o que não é. Talvez até Nascimento – e seus diretores – tenham aplaudido o processo ranzinza que Wanessa aplicou em Rafinha, por uma piada de mau gosto. Tá, de péssimo gosto, mas uma piada!!

Reclamar do BBBB é como reclamar do “menos Luiza”, porque tem uma aura fake e canastrona de alta cultura. Não gosta do BBBB? Mude de canal, desligue a tv, vá ler um livro ou plantar um pé de couve, quem se importa? Não gosta que comentem de BBBB em sua timeline do Facebook? Delete a pessoa que comentar, você nem precisa se despedir. Não quer ver comentários sobre a Luiza no seu computador – afinal de contas ele é seu, você pagou em 24 prestações na Casas Bahia – delete quem comenta sobre ela ou usa o meme. Pare de querer aparecer sendo algo que você não é, você que me lê, e você também, Nascimento.

Esse povo que fica arrotando ser bacana na internet é o mesmo que replica mensagens pedindo reenvio de fotos horrorosas argumentando que a família vai ser paga por isso (NÃO VAI!!). É gente que replica qualquer besteira ou frase idiota, bastando estar ao lado de algum artista cool ou personagem charmoso, como Dr. House. Esse povo é o mesmo que multiplica mentiras na rede porque é morto de preguiça de pesquisar a veracidade da informação, ou então porque é burro demais para pensar por dois segundos e ver que algumas coisas não fazem sentido.

Não é uma piada que nos faz menos políticos. É a falta de hábito, a falta de estudo, a falta de leitura, mas principalmente a falta de vergonha na cara e senso de coletividade. Que país é esse que um ministro faz e acontece e nada se escuta? Que país é esse que uma entidade estudantil nacional não se levanta sequer uma vez durante um governo, nem para defender os seus ou para fazer bagunça, pura e simplesmente.

Nascimento, nossos problemas não estão todos resolvidos, e você é um dos sintomas disso. Você e sua forma velha e ultrapassada de vomitar notícias escolhidas para entreter – e nunca para conscientizar – suas testemunhas. Nossos problemas não estão todos resolvidos, porque sequer conseguimos discutir os mesmos atualmente, porque não aceitamos mais o diferente, o antagônico. Vivemos tempos de verdades absolutas e isso não acontece de repente, foi construído. Estamos nos tornando um país de fanáticos, e nesse caso a Luiza é uma brisa de bom humor e leveza nesse país que está ficando sem graça e feio.

Idiota é tua vó, Nascimento. Idiota é teu cabelinho penteado de lado com gomalina. Idiota é teu texto escandido em que você não apita nem sequer em uma linha, mas se propõe a repetir e papagaiar o que os diretores e donos da sua voz decidem. Idiota é quem compartilha esse seu vídeo no Facebook achando que assim está se distinguindo da massa ignara e se tornando mais intelectual.

Luiza já voltou do Canadá, eu sei. Mas esse meme – assim como “All systems go” e “FUuuuuuuuuu” e vários outros – ainda vai durar muito tempo em lembranças e piadas. Uma lembrança que vai durar muito mais tempo que a lembrança de uma forma de jornalismo oca em que um sujeito arrota o que nem sequer entende e ainda aparece como herói para um monte de não-pensantes. Gente que – assim como Nascimento – prefere repetir o que outra pessoa disse para tentar definir o que não entende.

Galvão Bueno – que agora se esforça para acabar com a pouca reputação do UFC no país, com sua narração cretina – arrumou um parceiro. Carlos Nascimento até pode virar novo meme, junto ao “Que deselegante” (que foi muito melhor vivido por sua autora, que inclusive já brincou com ele ao vivo), para ver se ganha alguma notoriedade virtual.

Podemos começar agora. Então quem quiser ajudar, repete na web: Cala a boca, Nascimento!

Há braços!

Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei

eduardoinimigo@gmail.com

eduardo@ideiadiferente.com

twitter – @eduardoinimigo

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4 Comments

  1. Perfeito, notável. Chute no saco! Ou melhor, na cabeça! Ganhastes um amigo!

  2. Brasileiro faz piada de tudo, dae quando alguém critica isso, ainda acha que tá certo e tem o direito de xingar e ofender o outro.
    O erro do Nascimento foi questionar se já fomos mais inteligentes, pq na verdade, há quem nunca nem tenha sido. Da mesma forma que esses se acham certos, estando errado, também se sentem inteligente, não sendo.

  3. Acho perfeita a colocação do Nascimento, o brasileiro precisa ver que há muitos problemas no país que merece maior atenção do que ficar pensando na frase de alguém ou nas atitudes encenadas em um programa.
    Precisa-se pensar naquelas pessoas que perderam tudo nas enchentes, nos milhões que passam fome, nos drogados e nas drogas dos governantes que temos. Acorda Brasil.

  4. Pessoas,
    a crítica é totalmente válida, realmente o povo brasileiro se preocupa com coisas desnecessárias e fúteis, por isso nos chamo “povo bunda”. Mas isso vindo de um sujeito que faz parte dessa estrutura é cínico. Vindo de um canal concorrente ao canal que passa o BBBB se torna canalha.
    Só isso.

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